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Ensaio

Luiz Carlos Coelho de Oliveira


Sou a cena viva onde passam vários atores,
representando várias peças

Bernardo Soares

 

Teatro e Poesia
Uma dialética de obscurecimento


Morre o verso, nasce a cena! Este poderia ser, sem dúvida, o grito do arauto contemporâneo, o Zaratrusta que, com sua lanterna, procuraria a palavra pura que jaz prisioneira na garganta do poeta surdo, o poeta que só vive enquanto vê, ouve ou sente o movimento da sua palavra reduzido a gestos, imagens ou sons.

A modernidade desferiu seu golpe à Palavra proferida em cena e à Palavra no verso, os dois palcos implodidos pela impossibilidade de conter a Palavra no seu sentido menos estrito. A ascensão do que se chama teatro contemporâneo está intimamente ligada ao apogeu da designada cultura de massa. Esta, por sua vez, é conseqüência de uma série de eventos políticos, sociais, históricos, artísticos e intelectuais que se convencionou chamar "modernidade", eventos que possuem em comunhão algum resquício de rompimento com a tradição.

Viu-se a necessidade de atender a um novo público pouco afeito à ação da palavra doutrinadora e, a partir de então, engajada com uma sensibilidade que, pedagogicamente, condiciona o indivíduo a uma nova ordem moral, que privilegia ora o sujeito, ora qualquer outro constructo ocidental. Vêem-se, então, o apogeu da imagem e do gesto e o fim da recitação no espaço da cena. O teatro clássico perde o seu sentido. A poesia perderia, então, seu espaço dentro da cena.

A poesia de Baudelaire e Mallarmé preconiza elementos não-verbais. Baudelaire insere no seu poema a massificação do som e do movimento que aturdiam o homem moderno e Mallarmé faz da página em branco tão ou mais importante que os signos outros que constituem o poema. A intenção de Mallarmé se expressa em um bordão um tanto clichê para nós, a primazia da intenção de escrever o livro sobre a de escrever o poema. Valorização do gráfico sobre o que se convenciona poético e, por isso mesmo, verbal. As palavras representam os espaços em branco e os intervalos de tempo, no interior do poema propostos por Mallarmé, convocam as palavras a representar dentro do universo para além de lingüístico que se chama poema.

O leitor é convidado a intervir e a dialogar com a obra preenchendo com sua interpretação o que fora omitido pelo autor, tanto no poema quanto em um espetáculo. Colocam-no em um lugar de atuação em que tudo é parte do universo simbólico que pode vir a construir sentido, o poema e o espetáculo passam a ser essencialmente lacunares se comparados ao espetáculo da palavra poderosa e unívoca do teatro grego e da metáfora criadora da poesia clássica.

Onde não há palavra, tudo passa a ser simbólico, o instrumento para abominar o logos é também um signo dotado de outro significante. As intenções revolucionárias de qualquer manifesto contra um teatro mais identificado com um ideal nostálgico, em que a palavra usada na cena pode comunicar um sentido (extra) moral, têm muito a ver com um sonoro gemido utópico de um cego que não consegue ver à em sua volta o que outros vêem.

Em outras palavras, as manifestações culturais nunca se reduziram a uma específica escola estética que defende um tipo de apropriação de um tipo de manifestação artística. A obra Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, autores ligados à Escola de Frankfurt 1, teoriza a lógica cultural capitalista e condena toda manifestação artística destinada às "massas", incluindo no bojo do que é dedicado às massas todo o modelo estético já assimilado pelo "populacho", tomando todas essas manifestações artísticas como não recomendáveis. Defendem como arte "esclarecida" somente as de altíssimo e inovador padrão estético. As que rompem com um horizonte de expectativas cristalizadas por uma percepção capitalista.

Toda repulsa da Escola de Frankfurt às culturas de massa como não-esclarecedoras foi uma tentativa de reduzir ao unívoco o que sempre quis por vocação própria ser ambíguo, o artístico. O impróprio sempre há de se disseminar enquanto não o perceber como manifestação do mesmo. Ou seja, não morrerá a palavra no teatro, tampouco o não-verbal na poesia a fará morta. A comunicabilidade da arte e sua relação com o tempo não subvertem o belo, desde que o reconheçam como existente.

 

1 Escola filosófica que inseriu a Teoria Crítica nos estudos filosóficos sobre arte. Destaque para os autores Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Theodor Adorno e Max Horkheimer.

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 9 : download PDF

 

 






 

 


 

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