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por Júlio Diniz
Professor de estudos de Literatura


Sim, disse sim, quando Isabel Diegues, em nome do Conselho Editorial do plástico bolha, me convidou para esta honrosa tarefa – escrever (com carinho) um texto-depoimento para os alunos. Coloquei-me imediatamente na posição do aluno, do Júlio aluno, e não só do professor. Acionei a memória e dela emergiram personagens, imagens, lutas, dores e muita alegria. Tive mestres brilhantes durante a minha formação intelectual e afetiva. Homens e mulheres que influenciaram profundamente nas minhas escolhas: da música à poesia, da invenção do texto à sala de aula inventada, do falar ao ouvir. Foram franciscas, neys, robertos, helôs, samiras, marlenes, silvianos, affonsos, heidruns, antonios que abriram na terra fértil e ainda imatura os mapas que me levaram às cartografias do meu desejo – aprender e ensinar. Todos se transformaram propriamente em nomes comuns, verdadeiros sinônimos de mestre, vozes da transformação, da busca e da tolerância. São todos eles meus santos de guia, os que me ajudaram a atravessar um caminho mais distante que o de santiago, como romanos a me apontar a hollanda, terra das letras capturadas pelo candido gesto de acolher o outro.

De todos os meus grandes mestres, dedico (com carinho) este texto a minha musa maior, Dona Cleonice Berardinelli. Esta entidade – a outra mulher que eu conheço que carrega consigo o título de Dona, com a força dos nobres e a firmeza dos sábios, é Ivone Lara, a sambista genial – acabou de completar 90 anos. Eu pude participar de alguns dos eventos que celebraram o aniversário de Dona Cleo e em todos eu me reencontrei com o macérrimo e cabeludo pós-adolescente que com 17 anos resolveu fazer Letras na UFRJ. Lembro-me da aula inaugural que ela proferiu (com carinho) no Auditório Gil Vicente, trafegando (de cor, cordis) por sermões de Vieira, trechos dos autos vicentinos, cantos de Camões, parágrafos de Eça, versos de Pessoa. Minha vida nunca mais foi a mesma depois daquela clara tarde de outono.

Queria muito dizer a vocês, alunos de Letras, que o que eu humildemente posso escrever sobre a nossa relação cotidiana diz muito das vozes que me antecederam e que me ajudaram a ver melhor o horizonte. Da Gávea, sim, vê-se com propriedade a linha dos mais delirantes sonhos a adormecer na tenda azul do além-mar. Queria muito que vocês soubessem da minha alegria de poder construir com vocês um pouco mais do inacabado edifício que é o saber, da delirante aventura que é o homem, bicho da terra que de tão pequeno resolveu falar, ler e escrever. Queria muito afirmar, trazendo Dona Cleonice à cena, que vale a pena ser professor, não pela alma que não é pequena, mas pela vida que carece de navegadores e timoneiros. Com delicadeza, obstinação e carinho, sim.

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 8 : download PDF

 

 






 

 


 

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