Espaço onde o tempo adormece, a gaveta me oferece cheiros esquecidos.
Pequeno império da memória reinando silenciosamente. Espécie de espelho refletindo a poeira dos gestos.
Cavando surpresas, flagro na carta o antigo instante; encontro recados já inúteis, recibos sem sentido. (Um pedaço de sol entra no quarto, mas não alcança a paisagem da fotografia amarelada).
Fecho a gaveta com força. Não mais desafiá-la - eis o presente. No entanto, o pensamento espia: abro-a novamente.
Qual segredo, qual dia, quais mãos levaram essas peças para a gaveta? A agulha, o grampo, uma moeda; retiro tudo de dentro, recupero todos os detalhes renascendo em cada coisa.
Mas sei que já não posso acordá-las. Talvez, sim, libertá-las do esquecimento, aprisionando-as aqui, em minha palavra.