Tire a roupa; há um tempo para cada coisa anteriormente fixado; execute o ritual como um iniciado. Faça despindo-se de si mesmo, ignore-se como espectador desse espetáculo. Suba no púlpito; abrir o chuveiro é como ajustar para si o microfone. Hesite antes de entrar, é fundamental o intervalo entre o seco e o molhado; afinal, é nesses instantes que você é só você. Molhe-se sem esmorecer; definitivamente, decida-se. Não seja superficial, use shampoo e condicionador, além, é claro, do sabonete. Repita essa operação, a constância conduz à perfeição. Se não sentir prazer nisso, lembre-se de que alguns chegam à perfeição pela ascese. Por fim, lembre-se de que o fim de todas as coisas molhadas é a toalha, e todos que fugiram desse fado foram amaldiçoados pelo mal que rasteja ao meio-dia: a micose.
Enquanto não tomar outro banho, não tire a roupa.