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Tradução de textos infantis: um exercício de delicadeza

 

Se não tenho filhos, não leciono, mal convivo com crianças, por que escrever sobre literatura infantil?

Na verdade, sou tradutora, e é com o olhar de quem transforma o texto original e o torna acessível a novos leitores que venho considerar alguns pontos ligados à tradução de livros infantis.

Na teoria da tradução, Eugene Nida, o pai da equivalência dinâmica (*), ensina que o profissional deve avaliar a natureza da mensagem, o objetivo do autor, e, conseqüentemente, do tradutor, e o tipo de público visado pelo original (Barbosa, 1990).

No caso das crianças, é necessário, antes de tudo, respeito. Somos responsáveis pelas informações que lhes chegam, e elas merecem, simplesmente por serem crianças, o melhor possível.

A preocupação é mundial: em março de 2006, aconteceu em Bolonha, na Itália, a 43ª Feira de Literatura Infantil (http://www.bookfair.bolognafiere.it), que destacou a importância do tradutor no desenvolvimento e na internacionalização da literatura infantil. Foram abordados temas como a tradução para crianças árabes, o papel da cultura, sendo focalizados conflitos e tendências de globalização, além da necessidade de adaptar ao invés de traduzir.

São diversos os procedimentos técnicos de que se vale o profissional da tradução, entre eles a equivalência, a compensação, a reconstrução de períodos, a aclimatação e a adaptação.
Adaptar é o limite extremo da chamada "tradução oblíqua", não literal, usado quando a situação "extralingüística" não existe no universo cultural dos falantes da língua-meta, devendo ser recriada através de situação equivalente.

É o caso dos livros infantis: a adaptação tem de ser responsável. O tradutor vai ultrapassar as barreiras do idioma e se valer de referências culturais, num trabalho além do "copia e cola." Será necessário mudar, adicionar, substituir, incluir, recombinar. De maneira inteligente e hábil, no caso do Brasil, trocar a neve pela praia, o casaco pelo biquíni, explicar por que uma menina muçulmana usa um xador, por que um garoto na Índia não come carne de vaca.

É importante seduzir o leitor de amanhã, com a necessária sensibilidade para conquistar crianças da era da internet, da comunicação instantânea, dos blogs e chats, mas ainda fascinadas pelas palavras, pelos livros, pelas histórias de outras crianças.
O que sugiro ao tradutor é um exercício de delicadeza. Trabalhe o texto como se fosse uma poesia, uma canção. O ritmo deve ser artesanal.

Em entrevista no site http://www.booktrusted.co.uk/, a tradutora inglesa Sarah Adams, vencedora em 2005 do prêmio Marsh, do National Centre for Research in Children´s Literature (http://www.ncrcl.ac.uk/), traz uma imagem interessante: o tradutor acrescenta algumas camadas de tinta ao texto e remove outras, num trabalho que classifica de "penoso".

Nem tudo chega a quem lê um texto traduzido; os profissionais já se conformaram com o fato. Mas a sutileza e a brandura serão decisivas para transportar a criança para dentro da história. Um bom ilustrador poderá ser um grande aliado, mas nem sempre estará disponível.

Findo o trabalho, peça para uma pessoa avaliar. Dê preferência a alguém de pouco mais de um metro, com pelo menos dois dentes faltando.



* A equivalência dinâmica tenta transpor o texto de modo que o leito encontre no texto traduzido modos de comportamento e outros elementos extralingüisticos relevantes em sua própria cultura

Textos consultados:

BARBOSA, Heloisa G. (1990) Procedimentos Técnicos da Tradução. São Paulo: Pontes
CAMPOS, Geir (1987) Como Fazer Tradução. Petrópolis: Vozes in www.ead.ufms.br
VENUTI, Lawrence. A Invisibilidade do Tradutor in Palavra 3 (1995). Rio de Janeiro: Letras/PUC-Rio.pp 111-134


 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 6 : download PDF

 

 






 

 


 

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