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A primeira vez

01:17. Um café, um filme e uma idéia. Por uma noite, eu seria Charlotte. Seus segredos e desejos, meus. Sua vida, minha vida. Assim, minha própria identidade se esmaeceria.

A ansiedade crescia, nunca fora outra pessoa antes. Já havia fingido, é claro, mas nunca me transformado no outro; pensado, sonhado e sofrido como o outro.

E me perdi tão intensamente, que logo já não pensava mais no agora, no hoje. Transportei-me no tempo, sem conotações dessa vez. Meu corpo estava preso a este mundo por uma "fatalidade vegetativa". Meu intelecto, preso ao de Charlotte por amarras insolúveis, preso em outra realidade. (A cronista já mencionou que acredita em universos paralelos?).

Era minha primeira vez e eu relutava em desprender-me do outro. O sono, a fome e uma pungente dor na coluna eu só senti quando fui enxotada de volta ao sofá da sala.

Estagnei, soltei a caneta, faltava-me o fôlego. Olhei em volta e depois para o papel. O eu escritor voltava lentamente a comandar minhas ações. Tateei pelo relógio. 06:17. Não era possível, não conseguia lembrar do tempo passando nesse plano. Aliás, transportamo-nos mais no tempo e no espaço quando escrevemos do que quando lemos. Deveras, metafísico.

Minha noite havia durado cinco folhas de papel e dois terços de uma caneta novinha.

Não havia forças para mais nada, adormeci debruçada sobre Charlotte.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 5 : download PDF

 

 






 

 


 

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