Escrever não é assim tão fácil quanto parece. Começo arrumando a mesa. Tirando o que não interessa. É como naquela história: para esculpir o cavalo, tiro tudo do mármore que não é cavalo e lá está o cavalo. Pois bem, tiro da mesa tudo que não é a crônica e me sobra o vazio. E aí? Cadê? Onde foi parar aquilo que eu iria escrever? Começo a fazer minhas listas. Afazeres, médicos, compras; tudo que puder anotar, escrever, registrar em palavras se torna indispensável no meu disfarce de escritor. Passo horas respondendo a emails inúteis, passo dias arrumando e mudando as coisas de lugar. Até que um dia, olho para o relógio e descubro: Ih! O prazo é amanhã, daqui a exatas 8 horas e 37 minutos. Ferrou! Vou ter que sair correndo. Mas assim não vai ficar bom. Precisava de tempo; tempo para escrever, tempo de revisar, tempo de ler outras coisas para me dar idéias, tempo de ir ao cinema, tempo de encontrar aquela velha amiga que toda vez que esbarro na rua combino de combinar de nos encontrarmos, e nada. Pronto, gastei 49 minutos fazendo a lista de tudo aquilo que deveria fazer antes de começar a fazer o que deveria. E o relógio, egoísta e insensível, não pára nem um instante para me dar um tempo. Talvez se eu tentasse suborná-lo. Mas com o quê? O que poderia dar em troca de uma espécie de imortalidade superômica, que faria o tempo me dar um tempo para eu ter um tempo de escrever o que preciso? Socorro! Passaram-se mais 27 minutos e nada. E agora preciso arrumar um assunto, um jeito de me concentrar. Mas tá me dando uma fome incrível. E se eu parasse agora um instantinho para fazer um sanduíche e voltasse revigorada e cheia de energia para ter uma grande idéia? E se eu não tivesse idéia nenhuma? E pior, se no meio do sanduíche eu tivesse A Grande Idéia e entre uma mordida e outra ela me escapulisse para sempre? Passaria o resto dos meus dias perseguindo a idéia escapulida que teria sido minha redenção e minha glória. Aquela que me traria o reconhecimento tão esperado e a compreensão dos que nunca entenderam meus escritos nunca escritos. Que aguardam ansiosamente o dia em que eu viria a ter a grande idéia que seria a salvação, não só do meu emprego e da minha conta bancária, como também de toda a humanidade. Com a qual eu decifraria os mistérios da alma humana tão densa, tão intensa como os escritos que faria um dia. Ai! de novo! Gastei mais 43 minutos e meio do meu precioso tempo e agora, além da fome, estou ficando com sono. E se eu não dormir? Como poderei estar de pé amanhã cedo para defender minha tese, que deve ser escrita o mais rápido possível para que dê tempo de eu revê-la e reavaliá-la e reescrevê-la de forma que possa ser imortalizada como merece ser uma idéia tão pura, tão reveladora, tão inescrita como a minha? Um café! Será o café que lançará a luz que falta em minha mesa. O café! O café é o motor do homem! Ufa! Pronto! Escrevi! E ainda completei uma lauda. Já posso ligar a tv e assistir a reprise do jogo do Botafogo que começa em exatos 3 minutos. Bem em tempo.