Marisa enviuvara. Estava sozinha, ela e dois filhos para criar. Estava sozinha. Era só isso que conseguia pensar no enterro do marido. O marido a havia abandonado, para sempre. E ele fazia tudo, cuidava do dinheiro, da casa e dos filhos. Ela apenas observava e tricotava, mal falava, mal tinha autoridade e, agora, estava sozinha.
Como cuidaria de duas crianças? Nem tinha contado para elas da morte do pai. Não sabia como contar, não sabia o que fazer. Marisa era um fracasso, um fracasso como mulher, como esposa, como mãe: um completo fracasso. A cidade inteira sabia disso, todos a criticavam, com doses de inveja, mas na maioria das vezes com razão. Ela havia casado com o homem perfeito, ele fazia tudo, e a ela restava apenas observar e tricotar, observar e tricotar. Agora, ele estava morto e ela, sozinha.
O desastre já havia começado. Ela podia sentir pelos comentários gerais. Os erros dela jamais seriam perdoados. Primeiro erro, o enterro de caixão fechado. Ninguém entendeu e nem entenderia: fechado para as crianças não verem, fechado porque ela não queria que elas soubessem. Segundo erro, ela não estava de preto. Ela não tinha roupas pretas, não sabia o que usar e foi de azul-marinho. Terceiro erro, as crianças. As crianças brincavam durante o funeral. Enquanto o pai era enterrado, as crianças brincavam. Até o padre se revoltou com isso e disse a ela: "pelo amor de Deus, senhora, isso aqui não é lugar de crianças brincarem", e ela apenas abaixou a cabeça. E, enquanto isso, os comentários a cortavam como farpas. Todos notaram, absolutamente todos, e ela jamais seria perdoada.
As crianças nunca paravam, nunca. Eram crianças e não sabiam da morte do pai. Corriam de um lado para o outro e os gritos e risadas da menina se faziam ouvir por todo o cemitério. Parecia que estava rindo dela. "Será que elas não vão parar nunca?", era o que comentavam e eram também os pensamentos da mãe. Assim ela transferia suas responsabilidades maternas. Por alguns momentos, ela deixou de ter filhos, deixou de ser mãe e parou, simplesmente parou. Por alguns momentos, ela fechou os olhos e rezou.
Pediu muitas coisas, pediu para o marido, pediu para Deus. Ficou muito tempo rezando. Não exigia nada de si mesma, queria apenas que o destino, com o seu dedo mágico, consertasse tudo. Ela pediu, implorou para que as crianças parassem. Implorou por ajuda, por socorro, pelo marido. Nesse momento, a primeira lágrima correu pelos seus olhos.
Enquanto rezava, nada ouvia. Até que a cutucaram e ela despertou, como de um sonho; estava na hora de enterrarem o corpo. Selaram o caixão e o corpo foi levado. Ela estava do lado, acompanhando e ainda rezando, sempre rezando. Todos falavam e choravam, e ela nada ouvia. Percebendo a solenidade do momento, as crianças pararam de brincar. Não se ouviam mais suas risadas e gritos. Apenas choro e desolação, um enorme coro de tristeza acompanhava o corpo do marido. Enquanto isso, Marisa rezava.
A reza era como o tricô, trouxe à Marisa paz. Paz pela vida desperdiçada, por tudo que deixou de fazer e viver, paz pela morte do marido, paz pelo casal de crianças bagunceiras. Mesmo sozinha, ela encontrou a paz.
O cortejo então parou e o padre fez as elegias. Muitas homenagens foram feitas ao marido de Marisa e ela nada ouviu. Falou-se de tudo o que fez, de todos que ajudou, da esposa, das crianças. Falou-se muito das crianças. O padre, citando Mateus, finalmente encerrou: "ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará boas coisas aos que lhe pedirem?". E Marisa, ainda absorta, sempre rezando.
Depois, baixaram e enterraram o corpo. Marisa ainda rezava. Enquanto desciam o corpo, ela pensava: "por favor, Deus, não me abandone, não me deixe sozinha com dois filhos para criar, não me deixe sozinha". E ela nem sabia das crianças, não sabia onde estavam ou se tinham ouvido as homenagens. O corpo foi enterrado e todos foram embora, exceto o padre. Ela estava, novamente, sozinha.
Marisa abriu os olhos e encontrou o filho. Lá estava ele, correndo de um lado para o outro. Ela o chamou, e ele não ouviu. Chamou de novo e ele ignorou. Ela quase começou a rezar novamente, mas conseguiu alcançá-lo e o puxou pelo braço: "onde está sua irmã?". "Eu não sei", respondeu ele.
A mãe ficou desesperada, o desastre continuava. Ela vasculhou o cemitério, com o filho pelo braço, gritando o nome da filha e não a encontrou. Perguntou para o padre e ele não sabia, mas talvez tivesse visto alguém a levar antes do enterro: "pensei que fosse a filha de outra pessoa", disse o padre. E ela percebeu que estava realmente sozinha, não podia contar com ninguém.
Foi para casa e ligou para todos do enterro. Só conseguia pensar nos comentários sobre ela. Não pensava na morte do marido, nem no sumiço da filha, apenas no seu desastre e na sua solidão. Mas não importava, tinha que encontrar a filha, tinha que ser a mãe; não podia mais se esconder.
Marisa virou a noite ligando para todos na cidade. Ninguém sabia da filha, ninguém tinha visto. Marisa teorizou alguma conspiração, não era possível que a filha tivesse sumido do nada. "As pessoas simplesmente não somem", dizia ela a todos. E ninguém sabia como responder, afinal, a culpa era dela, só dela.
Ela foi à polícia, que nada garantiu. Ela voltou ao padre, que nada acrescentou. Voltou ao cemitério e nada encontrou. Então, diante do túmulo do marido, ela chorou. Depois de uma semana do enterro e do sumiço da filha, ela chorou. Chorou todas as perdas. Chorou o marido, a filha e, sobretudo, a si mesma. A culpa era toda dela.
Voltando ao carro, onde o filho esperava, eles voltaram para casa. No caminho, o filho começou a falar com a mãe. Ela primeiro não ouviu, não se interessou, não prestou atenção. Só depois, notando a seriedade do discurso, ela pôde compreender as palavras do filho e o destino da filha: "mãe, nós estávamos brincando de pique-esconde, e ela disse que sabia qual seria o esconderijo perfeito".