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VI(C)TOR VIVE

Eduardo Heringer


Um artista incrível morreu, e intenciona-se comentar algo sobre o assunto. É situação difícil quando a pessoa também fez parte, por menor que seja, da sua vida pessoal. É situação difícil para mim, que, dos meus vinte e seis quase sete anos de idade, passei com o Victor vinte e seis.


Quero poder falar da pessoa mas também da obra, e por isso não posso rebaixar todo o acontecido a uma sessão de contemplação de cicatrizes pessoais. Mas também não posso me afastar do ponto de vista de irmão: em verdade vos digo que não consigo separar nada do que faço — em qualquer área — do ponto de vista de irmão do Victor, tão atrelada à dele é a minha identidade (sou irmão mais novo: ele viveu cerca de três anos sem mim e eu, sem ele há vinte e cinco dias, sou ainda café-com-leite no orfanato). Mas faz-se necessário, sei bem que ninguém quer olhar pra machucados, querem saber do que ainda vive, ou do que, a partir de agora, vive mais ainda. Me decido pela opção mais elegante; tentar deixar minhas hemorragias de fora do que for dizer ao mundo, reservá-las para as madrugadas, para as conversas sussurradas entre os nossos. A cratera na alma e os amores fraternos perenes talvez se mostrem sem querer, vazando pelos cantos ásperos da minha prosa mal praticada: quando comentar sobre ele em público, vou escrever seu nome com c, e alguns vão estranhar.

 

 


A amiga que tirou esta foto, de mais de um ano atrás e ressurgida esses dias em circunstâncias as mais casuais, não tinha percebido, até hoje, a pichação no canto esquerdo, “VITOR VIVE”, capturada por acaso. Como costuma-se dizer nessas horas — algo que tenho ouvido e pensado com frequência — meu irmão ainda vive, na memória dos seus próximos, na dos não-tão-próximos etc. E vive também a sua obra.


Comportamento tão estranho, o da obra de arte do recém-partido, da matéria liberta para sempre da alma extinta. Vai sair por aí cheia de energia mas, desengonçada, enroscar-se com os amantes mais improváveis, às vezes fiel, às vezes indiferente, às vezes em adultério obsceno à identidade do autor, que também vira moldável nas mãos do mundo, flexibiliza-se, toma aspectos novos, é distorcida — para o mal e para o bem... para quem amou ambos, pessoa e obra, duplamente esquisito de ver. Mas, como disse o próprio Victor, em meio ao desespero de pequeneza do Noturno para Astronautas, entre parênteses escudos:


Este é o planeta.
Os ditadores e diretores e pretores
também admiraram as estrelas
os heróis todos, os assassinos
e os senadores olham para o céu.
Não resta naco de ar puro
ou amornado pelos pulmões de meus irmãos.
(Porque há irmãos
tenho certeza de que há irmãos.)

 

Há irmãos que ainda lembram dele, e que sabem como se escreve e pronuncia seu nome. Mas também há o planeta... eu não sei não.

 

Que continuem me repetindo que VITOR VIVE — com pichações na parede, homenagens nos jornais, declarações de amor à sua arte, à sua pessoa, ao poema específico tal... me põe de fato feliz. Além disso, há umas ocasiões em que Santo Osmundo (santo protetor daqueles que sofrem de paralisia) me manda dos céus uma hora de tranquilidade, e chego a pensar, quase como que naquele otimismo calmo dos hippies, que, depois da morte, todas as versões diferentes da sua identidade estão de alguma maneira certas... mas me perdoem se vez ou outra eu gritar de volta “é VICTOR, cacete”. Temos todos as melhores intenções; saber do que ainda vive.

 



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº39: download PDF

 

 

 

 






 

 


 

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