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Camila Justino


Ricardo Sternberg: uma produção atravessada de charme e lirismo


Em sua última passagem pelo Rio de Janeiro, o poeta Ricardo Sternberg visitou a oficina de poesia do professor Paulo Henriques Britto na PUC-Rio. Desde então, o Plástico Bolha firmou contato com Ricardo, publicando alguns de seus poemas, acompanhados de traduções feitas por alunos do curso de Letras. Dessa vez, o Plástico Bolha foi até a University of Toronto, onde Sternberg leciona. Lá tivemos o privilegio de ser recebidos em seu escritório, cercado de pinturas, esculturas, fotografias e, claro, livros. Ricardo Sternberg é brasileiro, estudou na famosa escola de padres Santo Antônio, em São João Del Rei (MG), e mudou-se com a família para os EUA aos 15 anos, onde mais tarde iniciou sua carreira acadêmica, passando pela University of Califórnia e Harvard, até chegar à tradicional universidade canadense. Nesta conversa ele conta um pouco de sua trajetória, da descoberta da poesia e de sua troca de correspondências com Drummond.

 

A primeira pergunta é do Paulo Henriques Britto. Ele está curioso e quer saber quando vai poder ler seu próximo livro.


Essa é uma notícia recente. Há umas poucas semanas, mandei a versão final do meu próximo livro para a editora McGill University Press, que publicou meu último livro, Bamboo Church. (Ricardo mostra o manuscrito em formato A4). Para mim, eu fechava o livro com 50 páginas. Prefiro um livro com menos poemas, mas eles pediram mais; então eu mandei mais sete poemas. Eles escolheram cinco e justamente o favorito do editor, era o poema que eu mais hesitava publicar e não incluí no primeiro manuscrito que mandei para McGill. Comentei até com a Christine, minha esposa, que iria aceitar 4 dos 5 poemas e pedir para que aquele não fosse incluído. Mas acordei à noite e pensei que o poema poderia, sim, encerrar o livro. No dia seguinte, escrevi para o editor, disse que havia aceitado publicar o poema, desde que fosse o último. Mas ele me respondeu que não poderia encerrar o livro com esse poema; ele queria encerrar com Some Dance, título do livro. Era preciso entrar em acordo para finalizar o livro, e o editor me convenceu. Eu aceitei algumas sugestões, outras não. Não é uma relação antagônica.

 

Quando um poema fica pronto?


Para mim é cada vez mais difícil acabar, mas eu gosto daquela frase — eu acho que era o Valéry quem dizia — “o poema nunca é terminado, ele é abandonado”.

 

Começamos pelo fim, falando do seu último trabalho. Conte como começou seu contato com a poesia. Foi ainda no Brasil?


Foi no Brasil, mas eu não tenho lembrança de ter lido poesia na escola. Devo ter lido Olavo Bilac, não sei. Hoje em dia, aqui, temos muitas antologias para jovens e até para crianças, como The Rattle Bag, editado pelo Seamus Heaney e o Ted Hughes. Mas não me lembro de ter lido uma antologia, uma seleção ou algo do gênero. Quando penso nas primeiras lembranças, lembro muito bem do disco que meu pai tinha do João Villaret, um ator português que recitava poesia brasileira. Isso me marcou bastante. Até hoje, quando leio alguns poemas, me lembro da música e a entonação que Villaret colocava na poesia. Ele dramatizava. Deste disco me marcaram Nega Fulô do Jorge Lima, Pátria Minha do Vinicius e O caso do vestido do Drummond de Andrade, que eu ainda estou traduzindo. Outra lembrança muito viva é a poesia da música infantil. Se essa rua se essa rua fosse minha, eu mandava... Essa rua, esse bosque até hoje me dá um frisson.

 

A produção começou em inglês, já nos EUA?


Sim, comecei a escrever poesia nos Estados Unidos. Quando a gente ensina aqui nas universidades da América do Norte, a gente pode observar um aspecto interessante. Os estudantes estão aprendendo francês, por exemplo, e nunca escreveram um poema antes, mas de repente estão escrevendo poesia em francês ou em espanhol. Eu acho interessante esse contato com a nova língua, que é exatamente o que a poesia precisa, essa coisificação das palavras. Cada palavra é misteriosa, tem um peso, então minha iniciação na escrita está relacionada com o aprender de uma nova língua, o inglês. O início da minha produção também está relacionado com a tradução. Eu traduzia poemas e músicas de que gostava, foi um caminho. Assim que comecei a escrever, comecei a traduzir. Traduzi muitos poemas do Drummond e publiquei sem nenhuma permissão dele. Hoje em dia isso seria difícil. Na época eu traduzia e mandava para as revistas e, quando eram publicados, eu mandava as revistas para o Drummond. Ele sempre me respondia. Me lembro da primeira vez que ele me respondeu uma carta. Nessa época eu morava em Pocatello, Idaho. Ele escreveu: Me agrada muito saber que estou sendo traduzido por um jovem brasileiro em Pocatello, Idaho (risos). Eu senti uma ironia do Drummond. Eu também traduzi Um escritor nasce e morre, para a revista Ploughshares e o Mark Strand traduziu também três poemas nessa edição. O Drummond me respondeu agradecendo por ter mandado a revista com as traduções de Mark Strand. Não fosse você, eu não saberia das traduções do Mark Strand etc. Eu fiquei angustiado porque ele não comentou nada sobre minha tradução. Passaram algumas semanas, e eu mandei mais uma carta perguntando se ele havia lido a tradução para o inglês de Um escritor nasce e morre. Um tempo depois, ele respondeu com uma página datilografada dizendo ter sentado para agradecer a tradução, mas não agradeceu, e a única explicação só podia ser de ordem psicológica: era um conto que foi escrito num momento de amargura e que ele mais tarde rejeitou, e, em vez de se vingar do escritor, se vingou do tradutor, ele escreveu.

 

Você também traduziu João Cabral de Melo Neto e Jorge de Lima...


Traduzi, e traduzir João Cabral é bem mais difícil. Não é fácil conseguir manter a complexidade da sintaxe do Cabral sem que o poema traduzido fique com aquele ranço traduçoide. Traduzir Drummond é mais simples. Se você consegue pegar o tom de Drummond, o tom irônico, e equilibrar essa ironia do poema na tradução, fica mais fácil.

 

Os leitores e críticos dos seus livros são unânimes quando comentam sobre o charme da sua escrita, sobre o prazer que a leitura dos seus poemas proporciona. Como você enxerga esses comentários?


Acho que no início o que pode ter me ajudado a publicar rapidamente é esse curb appeal para o leitor, eu brinco que o poema é reader-friendly. Talvez aconteça uma atração imediata e até superficial, mas eu espero que tenha outras camadas depois desta mais imediata, mais superficial. Mas são poemas que, pelo menos num nível, você entende logo, não é um quebra-cabeça. Sem querer sugerir comparações ridículas: um romance como Cem Anos de Solidão tem este charme imediato (o que nós chamamos a good read) e, claro, aspectos menos acessíveis. Meus filhos leram o Garcia Marques ainda adolescentes e adoraram, sem entender muito os aspectos históricos, toda a triste história da exploração do Caribe que subjaz a narração. Eu acho que esse próximo livro, Some Dance, talvez tenha menos deste curb appeal. A música é mais complexa. A primeira parte do livro é mais chegada ao inglês coloquial. Essa é a minha impressão e a maior dificuldade foi escrever usando esse tom coloquial sem perder a força da poesia. O escritor acha que está sempre fazendo alguma coisa diferente até alguém apontar e dizer, “olha, mas aqui está a mesmíssima voz do seu primeiro livro!”.


Livros publicados: The Invention of Honey (Vehicule Press, Montreal, 1990, 2a edição 1996), Map of Dreams (Vehicule Press, Montreal, 1996) e Bamboo Church (McGill-Queen’s University Press, 2003, republicado em 2006). Some Dance (McGill-Queen’s University Press) tem sua publicação prevista para 2014. Site de Ricardo Sternberg:
http://ricardosternberg.com



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº34: download PDF

 

 

 






 

 


 

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