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Dobradinhas

Alice Sant'Anna & Valeska de Aguirre



[me acompanharam até o táxi]
Alice Sant'Anna

me acompanharam até o táx
i

onde deixei os olhos repousarem

no fio dos postes, a ladeira que subia

em direção à paulista

os dois continuaram caminhando

muito mais lentos

até onde moram, logo ali

em frente a um carro branco

ele com o braço atravessava as costas dela

duas cabeças baixas, amorosas

deviam pensar na lista do mercado

ou que na quarta seria feriado

poderiam...

não sei bem que vida levam

não sei que vida é possível

sob esses viadutos e prédios silenciosos

esperei o elevador chegar para alcançar o décimo nono

de onde fico mais tranquila ao ver

a antena que muda de cor fosforescente

e as poucas pessoas que cruzam a avenida

a essa hora da noite

elas não são reais, sei que não são

nesse quarto qualquer especulação é falsa

daqui não se comunica

coisa alguma

a cidade cenográfica dorme

num quarto de hotel

com edredom recém-passado

[O barco fora d’água]
Valeska de Aguirre

O barco fora d’água

gira ligeiramente

na língua do pescador

que diz e não diz

à lisa lâmina sob seus pés

para que serve um casco à vista

para que serve a geometria tridimensional

numa avenida sem ruas

 

diz e não diz

à brancura que encobre a sua vista

qual roupagem se despe

quando num pasto glacial

adora-se uma mulher

posso mirar crustáceos ao redor dela

 

já ele se vai

já o mar se foi

resta o ardor

do sal

na fala sóbria

nas unhas do pescador

 

ainda fora d’água

o casco trincado

o quarto refeito

aguarda

por marés que saibam

pouco sobre ela

e animais que só digam

onomatopeias.




Esse texto foi publicado no plástico bolha nº32: download PDF

 

 

 






 

 


 

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