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Camila Justino


Paulo Scott: mecânica do afeto


Desde sua estreia, em 2001, com o livro de poesia Histórias curtas para domesticar paixões dos anjos e atenuar sofrimentos (Editora Sulina), paulo Scott vem se revelando como um dos escritores mais talentosos e prolíferos no cenário da literatura atual. Entre outras obras, é autor do livro de contos Ainda Orangotangos (Editora Bertrand do Brasil), finalista do prêmio Açoiranos; a versão para o cinema venceu o 13º Festival de Cinema de Milão. Paulo Scott é escritor full time. Poeta, romancista, contista e disseminador de ideias surpreendentes. Foi idealizador e curador, junto com Fábio Zimbres, do projeto Na Tábua, que propunha uma combinação de linguagens, mesclando literatura e ilustração, em cartazes inusitados que foram espalhados em bares, centros culturais, carcaças de vans, cinemas etc. Seu mais recente romance, Habitante Irreal (Editora Alfaguara), tem comprovado a excelência de Paulo Scott: a obra acaba de ser indicada como finalista do prêmio Portugal Telecom 2012.

 

Você disse que o processo de escrita do seu livro Habitante irreal levou seis anos e muitas versões. Quais motivos o levam a interromper, apagar e reescrever?


Narrar a tragédia de maína, uma indiazinha de catorze anos obrigada a viver num acampamento à beira da Br-116 e suas repercussões demandou esse tempo e essa solução de distanciamento e recomeços. Não foi exatamente fácil ter um livro nas mãos, um livro que seu editor e seus leitores mais próximos aprovam, relê-lo e admitir que a dinâmica das personagens e as situações ali materializadas conduziram a uma história que não era aquela que lhe interessava contar. Numa perspectiva menos casuística, imagino que ter clareza a respeito do lugar aonde você pretende chegar como escritor dependa de exercícios de distanciamento como esse. É complexo, não há roteiro seguro, cada livro desencadeia um histórico único.

 

Em 2010 você foi contemplado com a Bolsa Petrobrás de Criação Literária. Isso lhe proporcionou uma possibilidade de ser um escritor full time? Como é essa rotina? Sentiu-se pressionado em algum momento?


A pressão existe independentemente de cobranças externas. Tento não pensar nos prazos e expectativas alheias. São fatores que paralisam qualquer um quando alimentados em demasia; imagino que, por isso, alguns acadêmicos tenham tanta dificuldade em produzir ficção, suas referências e as de seus colegas podem se revelar bastante opressoras. Da minha parte, o que posso dizer é que se tornar escritor em tempo integral é estabelecer um pacto de convivência com a insanidade da criação, ficam bem reduzidos os lugares para onde se pode fugir. Cocê passa a dispor do ócio de maneira diferente. A escrita assume o centro; esse deslocamento não é tão fácil de acomodar no início.

 

Você diria que os personagens acabam “ganhando vida” ao longo da narrativa? Até que ponto vai a autonomia dos personagens e do escritor?


Sim. O próprio narrador em terceira pessoa, a existência necessária desse narrador e de qualquer narrador (já que não se confundem com o autor), implicará esse tipo de consequência. Há etapas distintas: aquelas em que é necessário criar e as que obrigam o escritor a um enquadramento teleológico daquilo que foi produzido e de maneira a servir de base ao que virá a seguir; nos momentos mais críticos se acaba por resumir o processo a um buscar de solução (por certo, uma boa solução, a melhor que você puder encontrar). Nas narrativas longas isso fica mais evidente. É indisfarçável o estado de esquizofrenia. Alguém já disse que ser escritor é ter coragem de aceitar essa esquizofrenia. Não sei se consigo elucubrar a respeito, acho que já passei da fase de me preocupar com as irregularidades do meu estado mental enquanto crio. À propósito, o olhar re-visor nunca será o mesmo da criação. O fundamental, prefiro pensar, é se manter crítico, não se deixar levar pela paixão quase inevitável que o sujeito tende a desenvolver em relação à própria obra. Isso é armadilha, uma das piores.

 

No seu livro, o absurdo chega a proporções extremas, quase sempre dolorosas. Você acredita na potência do excesso?


Não de todo. Não há como negar, contudo, que vivemos de excessos e de uma espécie de disciplina intuitiva por não reconhecê-los; sendo esse um caminho mais do que razoável para atravessarmos o cotidiano, para criarmos um cotidiano conveniente. A literatura (e a arte de modo geral) funciona sobre a possibilidade de reacender os sentidos, a percepção dessas excepcionalidades, de lidar com o extremo. A pertinência disso que você denomina potência do excesso dependerá da história que se busca narrar. O excesso pode estragar o que se programou de melhor para o livro; sempre há limites a serem observados.

 

Há na sua escrita uma ponte direta com os leitores jovens? Você escreve para um leitor específico?


Não tenho essa preocupação. Sei que não escrevo para crianças, acho que nem saberia. Quanto ao leitor específico, penso que há um leitor específico, ele está dentro da minha cabeça e é consequência das leituras diárias, das vivências diárias, das conversas com alguns leitores próximos, das minhas inquietações; apesar disso, eu não saberia identificá-lo, descrevê-lo.

 

Você conhece a teoria perspectivista que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro identificou no pensamento ameríndio? Caso sim, elas o influenciaram de alguma forma?


Sim, a Simone da Costa Carvalho, mestre em Letras na área de linguística, a quem dediquei o livro, por sinal, me falou e passou material sobre essa teoria. Como todo um volume grande de conteúdo pesquisado, li com prazer e interesse e de alguma forma deve ter repercutido na versão final do romance, embora eu não possa apontar onde (e em que altura) isso poderia ter ocorrido; talvez em algumas soluções do quarto capítulo, mas não de forma direta, detectável.


Seus personagens são apaixonantes e sonhadores, mas parecem ceder à covardia (em especial Paulo, Maína e Luisa). Você quis deixar uma mensagem para o leitor de habitante irreal?


Não acho que seja covardia, pelo contrário. As três personagens que você menciona apostaram até onde podiam, até o ponto de não conseguir mais, poucos de nós têm essa coragem de apostar até o seu limite. Se tal adjetivação possa ser, eventualmente, atribuída ao paulo e à Luisa (e veja que Luisa, por sua vez, quer a normalidade que ela própria recusou quando mais nova e que, a certa altura, passou a ser intangível), não cabe à Maína, porque ela não teve as chances dos outros dois, suas opções são extremamente reduzidas, ela quis um futuro para seu filho. A história gira em torno dessa vontade de que houvesse um futuro, o mínimo de dignidade que lhe foi negado.


Você diz em seu blog que durante a escrita de Habitante irreal priorizou mais a narrativa em si do que a experimentação com a linguagem. Você poderia falar um pouco mais sobre isso?


Mais enxuta e simples, a linguagem do Habitante irreal não se coloca como atração principal, é como avalio. A história em si é que se desdobrará em mecânica e direções mais trabalhadas, exigindo envolvimento do leitor. Optar por uma linguagem mais objetiva, menos barroca, em certa perspectiva e sem querer aqui teorizar a respeito, parece uma consequência natural da carreira de escritor que se proponha a dizer mais se valendo de menos.



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº32: download PDF

 

 

 






 

 


 

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