A manhã desagua em cada canto da sala. Da janela aberta, das cortinas descerradas, a noite se despede recolhendo sombras e
rápidas lembranças na bagagem já feita. Tudo é nu, como merece cada coisa do real a vigília de um olhar transparente. Todas elas em seu único tempo,
seu exato modo de ser, nesta claridade orvalhada por luzes ainda tranquilas em que me encontro, nos encontramos. A xícara de café abadonada por dois
goles; à frente, livros de Sophia, fechados, marcados, entreabertos, em minuciosa expectativa; o enorme amarelo ocre escorrendo pelas paredes; os olhos do
meu irmão, perdidos num tempo em que já não é nem memória, menos ainda, esquecimento. Nada mais que isto e tudo isto imerso em sua justa demora, neste
canto sigiloso, rumoroso, que faz, desde sempre, nossa ambígua habitação. Gostaria de saber que existo para que as coisas sejam. Que a inteireza de que
disponho é a transparêcia de olhar e rir para fora, como aquele vidro que se exalta com claridades súbitas despontando por todas as manhãs e tardes nesta
sala. E se ainda assim restassem palavras, logo elas me devorariam no exato ângulo baixo por onde a luz abre seus primeiros sorrisos. Como se nada mais
restasse fora destes encontros, como se fosse isto, que me envolve, que me basta - meu duplo, meu outro, meu espelho distante. Meu... Porém, vejo tudo com
uma avidez impaciente, vítima do tempo, que vai sempre mais à frente. Deflagro-me. Ando três passos nesta impaciência incauta, ingênua, esperando que no
quarto encontre alento, maior memória, qualquer coisa de eterno, minha insistência triste. Despeço-me de tudo. Ainda há noite aqui, ainda. E as palavras
estão torpes, gastas. Dispo-me e deito - pleno dia lá fora - entre lençóis ainda úmidos, um corpo doce e quente adormecido do meu lado e tantas histórias mais.