Sobre o canto de torcida no Rio de Janeiro
Abertura
O futebol, praticado aqui nos mais diversos espaços e condições, é também um fértil campo de pesquisas científicas para variadas áreas acadêmicas, das ciências médicas às humanas. Um tema multidisciplinar e central, a se falar no e também para se falar do Brasil.
Já se provou ser proveitoso enxergar o Brasil através do futebol, em suas relações, por exemplo, com a sociedade, a violência, as torcidas organizadas, a cultura de massa, ou as questões de gênero e raça. A música no Brasil, principalmente a popular, tem forte ligação com o futebol. Assim, é curioso que pouco estudo ou interesse tenha sido empreendido neste fenômeno potente que é o canto de torcida, protagonista nas arquibancadas, mas ainda sem um lugar de destaque na produção acadêmica.
Pausa para alguns compassos históricos
A história do canto de torcida no contexto carioca ainda está por ser estudada, inclusive no que toca à sua fase germinal, pré-Maracanã, do começo a meados do século XX. Os modos de torcer mudaram bastante nestes primeiros cinqüenta anos, da época em que era um lazer “aristocrático” até quando começa a ganhar contornos de atividade de massa, à medida que o futebol se populariza, mudando definitivamente com a construção do Maior da Terra – estádio anfitrião da Copa de 1950.
Pouco antes, porém, um fato casual começa a modificar todo o contexto da torcida no Rio de Janeiro: o desafio do radialista Héber de Bôscoli ao gênio Lamartine Babo a fazer um hino para cada clube de futebol carioca. Provocação aceita com bravura por Lamartine, que a cada terça-feira apresentava os hinos no programa Trem da alegria da Rádio Mayrink Veiga. Será que ele tinha noção de que estava mudando a história do futebol carioca e, por que não arriscar, da música popular brasileira? O fato é que seus hinos se consagraram na “boca do povo”, as melodias e letras fascinantes eternizadas pelas vozes da arquibancada.
Daí para 1950 foi um pulo; a torcida no futebol já era então uma atividade cultural de multidões, bastante ligada à musicalidade popular. No Maracanã, a música popular marcava presença, fossem os sucessos da época nos alto-falantes, as marchas militares da banda do Corpo de Fuzileiros Navais, os hinos nacionais ou a Charanga de Jaime de Carvalho, que chefiava a torcida organizada brasileira. O campeonato ficou marcado por nossa derrota na final (o maracanazzo), mas o que me parece ter marcado definitivamente a atividade da torcida no Brasil ocorreu na semifinal, em que a seleção massacrou a Espanha por 6 x 1.
Naquele 13 de julho, sucedeu-se o que alguns dos maiores cronistas e estudiosos do futebol brasileiro – dentre eles, Teixeira Heizer, Luis Mendes e João Máximo – definiram como “o maior coral já ouvido em uma partida de futebol”; mais de 150 mil vozes cantaram (já com a letra adaptada, notem) as “Touradas em Madri”, marchinha de João de Barro que parecia ter sido feita por encomenda: Caramba, carambola / Sou do Rio, não me amola / Pro Brasil eu vou fugir / Isto é conversa mole para boi dormir. O Brasil inteiro ali tomava um súbito conhecimento do fenômeno do canto de torcida. No fim, a paródia à clássica canção Cielito Lindo embalava os lenços brancos de despedida à “Fúria espanhola”: Ai, ai, ai, ai / Está chegando a hora / O dia já vem, raiando meu bem / Eu tenho que ir embora.
Na história recente, outros episódios atestam a força e a permanência do canto de torcida no contexto carioca: a torcida do Fluminense cantando “A Benção João de Deus” na final do Carioca de 1980; a torcida do Vasco cantando Nada mais gostoso que cair da arquibancada / Raça-fla já caiu de lá, em alusão ao acontecimento da final do Brasileiro de 1992 – a paródia era da canção “Banana boat”, cântico popular mento do folclore jamaicano, que fora tema da propaganda dos chicletes Bubbaloo banana na TV; e também o “chororô botafoguense”, na final do Carioca de 2007, que desencadeou uma onda de paródias entre suas quatro grandes torcidas. A repercussão foi tamanha que o termo foi oficializado e virou verbete da nova edição do dicionário Houaiss!
Retorno
Os modos de torcer no futebol continuam em transformação, acompanhando mudanças no esporte e na própria sociedade, e também os cantos de torcida vêm nesta esteira. Na década de 90, a violência nos estádios pôs em xeque, no âmbito do debate público, a instituição das torcidas organizadas, estigmatizadas como responsáveis por tais índices galopantes. A violência nas/das torcidas acabou? É claro que não, vide o ocorrido na última rodada do Brasileirão 2009, com a “batalha campal” do Couto Pereira (PR). A violência se reposicionou; por um lado, há um clamor tanto da sociedade civil quanto do poder público para controlá-la legalmente, e punir seus responsáveis – o surgimento do novo Estatuto do Torcedor, em 2010, indica o processo vivo de mutação e a disputa por que passa a atividade de torcer no Brasil. Por outro lado, as próprias torcidas têm dado suas respostas.
Nesta última década, assistimos a uma espécie de guinada comportamental no contexto carioca, proposta por novas torcidas, que parece ter como principal espaço de elaboração justamente seus cantos, renovados semântica, estética e politicamente. Como e por que a “torcida cantada” teria passado a ter novo significado nos últimos anos? Apesar de não ser uma modalidade de torcer exatamente nova no futebol brasileiro, tem sido entendida como uma característica distintiva de um novo, arriscarei dizê-lo, ethos torcedor, encarnado nas práticas de novas torcidas que pregam uma atuação pacífica, mas não menos engajada, nos estádios.
Algumas notas sobre os cantos de torcida no Rio de Janeiro
Loucos pelo Botafogo, Guerreiros do Almirante (GDA), Urubuzada, Movimento Popular Legião Tricolor: são coletivos surgidos há menos de 10 anos, que apesar de novatos no circuito dos estádios, despontaram no cenário das torcidas, e vêm ampliando suas fileiras incentivadoras. As influências que sofrem de outras torcidas são muitas, notadamente das Barras Bravas latino-americanas com seus torcedores hinchas, que têm na Argentina seus mais conhecidos exemplos, mas também das brasileiras, italianas e inglesas. E as influências são de todo tipo: comportamentais, musicais, coreográficas, ideológicas, e até no vestuário.
Mas todas estas influências são deglutidas e se misturam, ganhando contornos originais. Seus cantos de torcida vêm tendo enorme receptividade junto ao público de futebol em geral; neles, a “rivalidade cantada” não foi esquecida, mas reformulada, se centrando talvez menos na agressão frontal ou no baixo-calão, e mais na criatividade, na ironia sutil.
A grande novidade (não exatamente nova), no entanto, é o renascimento de uma tradição de “cantos-exaltação”, destinados ao apoio incondicional e apaixonado aos times de coração. Daí as palavras como “amor”, “paixão”, “orgulho”, “raça” e “sentimento”. Se, para falar da emoção ou do amor, se recorre à metáfora do coração, é que estes sentimentos são como formas de experiência incorporada – um coração não pode, de fato, ser preto e branco, assim como não pode a vida, mas ambos podem ser sentidos como “eternamente alvinegros”. ]
Da mesma forma, um tricolor diz que é “por orgulho” que ele canta e veste o manto, é por “essa paixão que vem de dentro, um sentimento verde, branco e grená”. Um rubro-negro diz ao seu time que sempre o amará e onde este estiver, ele estará. São os sentimentos que movem os cantos, e como todos sabem, “o sentimento não para”, como diz um refrão vascaíno. O sentimento, para o torcedor, não precisa ser explicado, ou não tem explicação; não se tem paixão pelo Botafogo, porque simplesmente “ser Botafogo é paixão”. Os cantos dão forma ao sentimento humano, se pensarmos que a música, enquanto obra de arte, não simboliza, carrega, veicula ou representa um sentimento. Ela é o sentimento em si.
Coda
Se a Copa de 2010 revelou ao mundo as ressonantes Vuvuzelas, os berrantes africanos made in China, rapidamente apontados como “a morte do canto de torcidas”, essa ameaça não parece ter ecoado aqui. Aliás, os cantos continuam vivos em todas as culturas musicais em que o futebol é praticado profissionalmente. No Brasil, o que eles sofrem não é um desprestígio, pelo contrário, é uma verdadeira ascensão no gosto popular – estão nas TVs, rádios, filmes, CDs, e claro, nos estádios, ruas e casas.
O contexto carioca aponta para o potencial do fenômeno social do canto de torcida, que vale uma agenda de pesquisa multidisciplinar, dada sua complexidade, atualidade e permanência em nossa sociedade. Em sua profundidade, articula práticas e concepções artísticas, políticas, econômicas, jurídicas, estéticas, emocionais, tanto em aspectos objetivos quanto subjetivos, em um amplo horizonte de conhecimento em que ainda há muito, ou quase tudo, a ser dito.