Partimpim de Calcanhotto ou Tem bicho na plateia?
Na primeira década do século XXI , quando a canção teve sua morte anunciada, o mercado fonográfico entrou em crise e se criaram novos meios de adquirir música via internet, a música popular brasileira apresentou um fato inédito em sua história: a heteronímia Partimpim de Adriana Calcanhotto. O primeiro CD, Adriana Partimpim (BMG), lançado em 2004, trazia ironicamente a classificação livre e, no ano seguinte, o registro ao vivo do show em DVD. Já em 2009, Partimpim e Dé Palmeira produziram o CD Dois (Sony Music) e Dois é show, lançado recentemente. Algumas gravadoras tiveram em seu elenco cantores infanto-juvenis ou desenvolveram projetos visando esse mercado, porém o dado novo que Partimpim traz à questão é rever ludicamente esta taxonomia: o que é adulto, o que é infantil? A partir de 2005 tornou-se comum a presença de crianças nos shows do ortônimo.
Uma vez que a voz é a mesma, que o rigor da escolha do repertório é o mesmo e que os músicos que participam das gravações quase sempre são os mesmos, justificar-se-ia uma heteronímia? A nosso ver, mais do que necessária. Dois traços, um visual e outro temático, singularizam Partimpim. Visualmente, a máscara seria o traço distintivo fundamental que subsumiria os demais. A máscara torna aparente o ser de Partimpim e projeta sua identidade. Nos CDs, o rosto de Calcanhotto está oculto atrás da máscara. Em seu primeiro show, ela desce ao palco e desaparece maravilhosamente portando-a; portanto, enquanto durar o show, essa é a entidade. Em grego, máscara diz-se prósopon, -ou (s.n.), forma que se compõe do prevérbio prós (diante de, à face de) e se ajusta ao substantivo óps, (s.f. e s.m → olho, rosto face, cara); portanto, etimologicamente prósopon significa ajustando-se ao rosto, diante da face. Podemos perceber que o que está em questão é a ação de esconder e ocultar. Além de máscara, pode apresentar outras significações, tais como o papel atribuído ao que chamamos de máscara, personagem, pessoa, pessoa gramatical, bem como face e figura. Em latim, denomina-se persona, -ae (s.f.), um empréstimo da forma etrusca φersu, que significa portador da máscara, homem mascarado. O que está em jogo no vocábulo latino é o agente, aquele que se mascara. Os sentidos de persona são os mesmos verificados em grego, exceto o de face e figura. Ernout e Meillet (Dictionnaire Étimologique de la Langue Latine) asseveram que é impossível estabelecer uma relação entre o vocábulo grego e o etrusco. Em português, a palavra máscara não é de origem grega tampouco latina, mas de origem árabe (mashara → bufão, personagem ridículo), através do italiano maschera, segundo alguns; outros, no entanto, atribuem a origem de máscara à forma do latim tardio masca (demônio ou a máscara que representa o demônio). Nas sociedades arcaicas, a máscara ritual funciona como uma representação do divino. Como símbolo, apresenta dupla valência: tanto diz respeito à possessão — isto é, o eu incorpora as potências divinas e demoníacas, apoderando-se da enérgeia do outro e restabelecendo um elo com o sagrado, o que faz que o portador da máscara se torne contemporâneo dos deuses — quanto se relaciona à proteção — ou seja, o eu possuído pela divindade corre o risco de não retornar a si, de permanecer sempre outro, em ékstasis, daí a necessidade de proteção por meio do ocultamento para fazê-lo voltar a si. Podemos perceber que Calcanhotto dá um tratamento estético a esse fundamento ritual.
O universo temático de Partimpim também difere do de Calcanhotto. Considerados todos seus lançamentos até agora, seu tema mais recorrente seria o bestiário próprio do imaginário infantil. Uma das primeiras relações que as crianças estabelecem, ainda no berço, com o mundo ocorre por meio de brinquedinhos sonoros, muitos deles em forma de animais. No primeiro show de Partimpim, os belíssimos origamis terimorfos do cenário de Hélio Eichbauer, que evocam formas geométricas no palco, foram apropriados pela cantora como objetos cênicos e musicais ao mesmo tempo. Há referências a seres híbridos como o Centauro, a animais que se metamorfoseiam como a lagarta borboleta-farfalla, a animais domésticos como o gatinho na trilogia do poeta Ferreira Gullar, a insetos como a formiga — enfim, a uma parte do mistério da natureza animal que, tanto por animização quanto por metáfora, se manifesta no discurso. Dada a universalidade dos procedimentos vistos, acreditamos que os shows de Partimpim não se restringiriam a países lusófonos, mas poderiam ser compreendidos e contemplados em qualquer lugar do mundo.
Cinco anos após sua estreia, Partimpim começou a compor assinando três canções no novo CD. Como não pretende ser um puer aeternus, não só amplia seu universo temático em duas destas canções — “Ringtone de amor” e o baião “Menina, menino” —, que tratam sobre amor mas também imprimem sonoridade diferente em relação ao primeiro CD. Dois se organiza conceitualmente pelo mote expresso no título. “Alexandre” e “Na massa”, bem como “O trenzinho do caipira” e “As borboletas”, articulam-se de modo dialógico. Em “Alexandre”, Caetano Veloso, à semelhança de um épico, traz à memória o maior de todos os seus heróis, Aquiles, e recria em terceira pessoa “as façanhas de reis e generais e as tristes guerras”, “res gestae regumque ducumque et tristia bella” (Hor., Ars poetica, p. 73), justapondo-as a um refrão altamente melodioso. A canção “Na massa”, de Davi Moraes e Arnaldo Antunes, possui a mesma configuração, alternando as ações de uma adolescente anônima que sai de casa em um domingo para retornar com toda sua liberdade e atitude no vestir-se com um refrão de característica semelhante. O poeta Arnaldo Antunes lança mão da ambiguidade dos verbos de movimento e de vestir-se. Nessa canção, Partimpim evidencia a presença do corpo nos seguintes versos: “Mostra a pele pelo rasgo da calça/Nada debaixo do short/Derramando seu decote”. Os feitos e a historicidade do príncipe Alexandre, que expandiu-nos o mundo, contrapõem-se ao anonimato e à contemporaneidade da adolescente com roupa de princesa em pele de plebeu. Já em “Trenzinho do caipira”, Ferreira Gullar encontrou os versos para melodia pré-existente de Villa Lobos; do mesmo modo, em “As borboletas” (gravada na casa na floresta de Partimpim), Cid Campos descobriu a melodia para os versos do poeta Vinícius de Moraes, um raro encontro de voz e canto, verso e poesia, melodia e música em harmonia. Às imagens cromáticas iniciais, brancas, azuis, amarelas e pretas, que caracterizam as borboletas, acrescentam-se imagens sonoras nos dísticos, que as reduplicam como um eco. Diverso é o processo em “Bim bom” (João Gilberto), canção inaugural da bossa nova: Partimpim, ao fundi-la com o samba-reggae do Olodum e com um coro de vozes infantis, apresenta-nos um novo modo de ouvi-la.
Heterônimo e ortônimo, alteridade e ipseidade, confundem-se, a nosso ver, no mesmo gosto pela poesia cantada. Para os que gostam de poesia cantada, Dois é imprescindível. Partimpim apresentou Dois é show em 2010, no Rio de Janeiro. Ficamos todos aguardando sua volta.
Esse texto foi publicado no plástico bolha nº29: download PDF