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Inscrito em Belém

Isabel Diegues


 

São três horas de voo. Não, quatro. Não sei. De todo o modo, é tempo suficiente para escrever. Tenho à mão o que preciso: papel, lápis, silêncio, mas não a ideia. Tento dormir, mas o pouco espaço impede o corpo de ficar à vontade. Fecho os olhos e cubro o rosto. Entre a vigília, o sono e o assombro, o tempo passa. No ar, em pleno voo, não estou mais onde estive antes, e ainda não cheguei ao novo lugar. Estou a meio caminho entre o que fui e o que estou por ser. Em trânsito, a ideia da memória me visita. Uma certa melancolia de voltar, 16 anos depois, a um antigo e conhecido lugar, a um estado de alma, de liberdade do eu. São poucos os lugares-momentos que transformam você no que você será para o resto da vida. Essas experiências impregnadas por baixo da pele lhe fazem o que você é. Belém viveu em mim por nove meses. Um lugar onde me tornei dona do meu tempo.

 

Temo não reconhecer a cidade, os odores, os sorvetes. Temo descobrir nunca ter vivido o que sempre acreditei ter experimentado; temo a ilusão de um lugar onde talvez nunca tenha estado. Lugar criado com a ajuda de fotografias amareladas, borradas, cheias de mofo, esquecidas num fundo de gaveta. Fotografias que são ativadores de memórias — como os diários —, e confirmam a veracidade de construções imaginárias de nossas vivências. Eles são, fisicamente, a prova concreta da existência de um acontecimento, de um romance, de um corte de cabelo, de um estado de coisas, de um estado de alma. Alma capturada pela lente, congelada no tempo e aprisionada neste hard disk externo imagético.

 

Entre a vigília e o sono, entre turbinas e nuvens, me pergunto se não seria mais justo simplesmente jamais voltar. Deixar o coração aquecido pela lembrança da luz, dos cheiros, dos rostos da memória; e escrever sobre esses traços que ficaram em mim. Mas é tarde demais. O piloto anuncia a descida. Já não há mais como abrir o paraquedas. A queda, forçada, é livre. Não sei quanto tempo estive quieta, de olhos fechados, decidindo sobre algo que não estava sob meu comando. Parece que se passaram não mais que vinte minutos. Vinte exaustivos minutos a questionar a ideia de voltar a viver algo que não sei se de fato vivi.

 

É tarde. O nariz e a garganta coçam, imploram ar puro. As luzes se acendem. É iniciada a descida. Depois o pouso brusco, o barulho das máquinas, tudo me parece muito real. Ao se abrirem as portas do avião, o choque. A memória vem de onde não imaginaria jamais; vem na pele, no tato, na sensação do ar espesso e molhado tocando a pele, o rosto, os braços, o pescoço. Posso fechar os olhos e me transportar a um passado de suores melados, lisos.

 

Tudo pode estar fora do lugar, tudo pode nunca ter estado ali. Mas eu estive. É a minha pele quem diz.

 

Belém, 08.09.06

 



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº27: download PDF

 

 






 

 


 

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