I – Do nada, do tudo
Na poesia, dum trovador, desses de taverna e bar, viola e cantar, um homem vislumbrou ser tudo. A caminhar, sem muito que pensar, levou suas pernas a um caminho que outrora jamais imaginou trespassar. Foi-se em direção a um rio: não era o Nilo nem o Eufrates; não era Tigre nem o Ganges. Foi-se e, na ida, a cambalear com o sol, com o calor, com as noites inversas, teve sua mão decepada num duelo que ele mesmo viu motivar. A delirar a dor no torpor com o horror de sua fisionomia (refletida no estúpido espelho que levara), viu seu rio correr no leito da secura.
II – De nada ao tudo
Era curto, porém suntuoso, profundo e veloz. Ao ver, descer da quase ausência, tomando para si tudo o que o circundava; apoteótico, a pairar na prostração do nada, o homem, agora ferido, carcomendo a própria angústia (da dor), mergulhou seu corpo quase por inteiro naquelas águas. Não eram límpidas nem agradáveis. A textura de argila a carregar seu corpo numa veleidade imprópria para as águas de um rio atribuiu à dor o irremediável. A ferida ardida em seu peito fundou a frustração de encontrar no nada tudo o que um trovador lhe confessou. Era agora tudo: a ferida não lhe gritou, a pele — dilacerada — reconstituiu-se, dando-lhe novo membro; a morte não podia mais digerir as entranhas: era infinito o homem.
III – De tudo ao nada
Pois de infinitude e longevidade seus passos remoeram. Caminhou terras demais para uma só memória; fornicou até não ver na sexualidade o torpor; viu a morte e nela depositou, ao par da condição, a ambição. Não mais sozinho se fazia, mas na sua lida o outro se jazia. Era pernóstico, não por se fazer assim (as circunstâncias o faziam); era angustiado, carregado na sobriedade do infinito. Não era tudo e, no vazio, faziam-se suas motivações. Morrer nada mais é do que findar, dizia; mas sua fala, sabia, era para os tolos, sorria. Ao sorrir, encabulado, resignado, sem se envelhecer, sem morrer, sem viver, doía. E ao doer — a dor do imortal, do infinito, do infindável — queria que, na canção dum trovador, ou nalgum escrito, achasse, porém, a mística do fim. Deu-se a impostura da procura: correu bibliotecas, frequentou trova e poesia, estudou séculos a fio. Por fim, já desgostoso com o saber, inconstante com o querer, o homem — o mesmo que há muito percorreu geografia — desejou ser nada, desejou findar. E no seu desejo, ímpar na vontade e par na grandiosidade, fez-se seu abrigo: o que julgava ser tudo agora era nada; do nada, porém, fez-se tudo e agora, sim, podia morrer.
IV – De novo tudo
Rumou para o leito daquele rio, ajoelhou-se, quieto, agora sem resignação no olhar ou prostração no cantar, e começou, devagar, a entoar a melodia de sua danação. Devagar, com curtos passos, ainda a cantar, foi entrando novamente no rio. As águas, que outrora com argila parecia, agora leve corriam e, sem o levar, deram a sangrar. A mão se desfez e o peito novamente encheu. A sua amargura, na secura, agora era anterior à dor. E, em vez de agonizar, o tolo homem, mais humano que nunca, continuou a cantar e sorrir, deixando que o rio — lúcido e suave — o levasse, sem qualquer dor ou rancor. E muito do sofrimento e da angústia concerniu para seus olhos; olhos esses que viram coisas demais pra um homem só, pois a imortalidade — para esse homem — foi senão o monótono exercício da solidão.
Esse texto foi publicado no plástico bolha nº27: download PDF