Cinema Cantado, Cinema Falado ou Tudo Azul
Exibido em 2008 e agora disponível em dvd, O mistério do samba, documentário dirigido por Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda, pretende resgatar o samba carioca de Oswaldo Cruz por sua melhor representação, a Velha Guarda da Portela. O documentário se constitui a partir de duas fontes: tanto de imagens de arquivo — isto é, fotografias e filmes quanto de imagens e depoimentos captados pelos próprios diretores. Desde 1998 Marisa Monte, para produzir o cd Tudo azul da Velha Guarda (EMI, 1999), inicia sua pesquisa conversando com seus componentes, ouvindo e redescobrindo seus sambas, até 2007, quando foram feitas as últimas tomadas, em uma roda de samba na Portelinha, em Oswaldo Cruz. No filme, essa pesquisa funciona como um singelo enredo, organizando a narrativa e o material filmado, porém não é senão um pretexto para aflorar, a nosso ver, suas principais questões: a memória e a inspiração de seus compositores. O filme conta ainda com a participação de Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho, que possuem vínculos afetivos e efetivos com a Velha Guarda. Paulinho produziu o primeiro registro fonográfico da Velha Guarda, o antológico Passado de glória (RGE, 1970); Zeca, por outro lado, afirma que sua referência de samba bom ocorreu no terreiro da tia Doca.
A primeira palavra dita no filme é antigamente, enquanto a câmera percorre pelo bairro, em uma de suas casas está inscrito 1927. Coincidentemente foi nos anos vinte que o samba, então um ritmo novo, foi levado do Estácio para Oswaldo Cruz e que a Portela foi fundada, tendo se originado dos blocos do bairro. Desfilou primeiramente com o nome Vai Como Pode entre 1932 e 1934, adotando em 1935 o nome Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela. Desde o início do filme, fica caracterizado o afastamento temporal evocado pela palavra antigamente e trará de volta esse passado a memória viva dos componentes da Velha Guarda, daqueles que conviveram com os fundadores e puderam, portanto, compartilhar do tempo forte da fundação da escola trará de volta esse passado. Eloquentes, nesse sentido, são os depoimentos de Seu Jair do Cavaquinho, dizendo que originalmente a Portela não saía com bateria, mas com trombone, clarinete, flauta, violão, cavaquinho e violino — e também o depoimento de tia Eunice. Ensinando o miudinho às crianças, ela afirma que aprendeu com Paulo da Portela, com Paulo Benjamin, figura emblemática para a escola.
Na mitologia grega, Mnemósina (Mnemosýne), Memória, uma abstração divinizada, é uma titânida, filha de Úrano e Gaia, portanto uma deusa de primeira geração a qual unida a Zeus concebeu as nove Musas. A raiz indo-europeia *mna, que se realiza em grego sob a forma mne, significa tanto lembrança, em relação a um objeto material por exemplo, monumento, tumba — como memória enquanto faculdade de lembrar, de suma importância para as culturas orais. É justamente esse sentido de memória a que assistimos no filme. Originalmente as Musas eram divindades das montanhas e das fontes, mas foram logo associadas ao Olimpo e ao Hélicon — segundo Homero e em Hesíodo, respectivamente. Além disso, tinham como função presidir à inspiração poética. A antiguidade considerava o poeta um intérprete e um veículo das Musas.
Os depoimentos, além de recuperar o passado atualizando-o, revelam a intimidade e o cotidiano de cada componente, fonte de inspiração para seus sambas. O samba, segundo Casquinha, “entra numa inspiração mesmo forte, bate no coração, aquele entra e fica”. Fundamentalmente são os homens que compõem, fazem melodia e letra oferecendo a segunda parte ao parceiro. Seus temas versam sobre a mulher, o amor e a própria escola. Embora as mulheres não compusessem, eram determinantes para o sucesso do samba no terreiro. Se as pastoras não cantassem, como diz Monarco, o samba não acontecia.
O mistério do samba retrata o subúrbio carioca de Oswaldo Cruz com sua linha do trem, com seus quintais, com suas rodas de samba e seu miudinho — enfim, o universo ao redor de seus bambas. Etimologicamente, a palavra mistério provém do grego mystérion e significa segredo revelado pelos deuses. O filme busca elucidar e desvendar o segredo e o mistério do samba; mas, pelo fato de ser mistério, contém algo que só o verdadeiro sambista, como um iniciado, conhece e sabe. O filme é dedicado a dois sambistas da Velha Guarda falecidos durante as filmagens, seu Argemiro e seu Jair — e mais recentemente, tia Doca. Ficamos todos gratos a Marisa Monte e ao seu selo Phonomotor pelo quanto têm feito em prol da Música Popular Brasileira ao registrar em vídeo e áudio esses sambas e preservá-los para sempre em nossa memória. Salve Marisa.
Esse texto foi publicado no plástico bolha nº27: download PDF