“o prazer do amor gira em torno
da certeza de fazer o mal”
charles baudelaire
a poeta voava pelos telhados
sonhando com a capital da solidão
a primavera assassinava o inverno
no céu surgia um pedaço de lua suja
a poeta dança nua na selva escura
na espuma insegura de túmulos abertos
andorinhas não conhecem os aeroportos
o verão enlouquece as fraturas expostas
a poeta está experimentando as asas
com a sua infinita lista de quereres
desentristecendo os poemas vingativos
do desinfeliz arquiteto da torre azul
a poeta late mais que morde
arde faz alarde fere maltrata
o tiro nunca sai pela culatra
o veneno dribla o único acorde
a poeta vive as coisas de dentro
muito mais que as coisas de fora
o cardápio de machos não satisfaz
são noturnos os joelhos que beijei
a poeta metralhou meu coração
no meio do seu não e o meu fim
tem o lírico cemitério do bonfim
a mais concreta avenida são joão
a poeta mordeu as bordas do dia
derrubando os escritos que vieram
destrambelhados pelo morro abaixo
arrastando espinhos de relâmpagos
a poeta estraçalhou o prelúdio
não conhece os poemas do livro
desastrada, quebrou os holofotes.
derramou o vinho nas escadarias
a poeta tem punhos de renda
os punhais dourados são a prova
do seu livre comércio com o mal
o alecrim floriu junto das rosas
a poeta tem a palavra derradeira
laudas amassadas, dores encardidas
sua alma é formada por labirintos
a poesia é seu abismo consistente
a poeta está construindo a sua morte
cantando a dor dos culpados de sempre
a vida é uma grande queda horizontal
desequilibrar é sina, levitar é preciso
Esse texto foi publicado no plástico bolha nº26: download PDF