I
O cárcere de pedra é gélido às margens do Mar de Okhotsk. Apenas um estreito feixe de luz invade a escuridão do espaço. O homem, no canto mais seco, luta contra a umidade e a neve: com uma espécie de agulha negra, entalha desenhos complexos pelo corpo. Diante da sombra, a tinta é a única forma, ele pensa, de se manter aquecido e desperto.
Sua pele é deserta e vazia, o sopro de gelo entra pelo espaço das frestas e, mesmo sem agasalho ou ideia das cores, ele começa a pintar-se pelos pés, com uma sequência de oito praias escuras que acompanham o intervalo entre os dedos e que seguem para o interior dos tornozelos como uma vegetação de arbustos e espinhos até se converterem em uma densa selva tropical nas coxas e virilhas. A partir da cintura, as florestas criadas pela agulha passam por uma transição até tornarem-se uma savana aberta, que se espalha desde o abdômen até a desnivelada aridez das serras que ele entalha nas costelas.
Sobre toda a parte inferior do ventre ele delineia um grande e calmo mar interior abastecido pelas águas de dois rios que nascem na ponta dos mamilos. Fontes, lagos, regatos e riachos são criados acompanhando setores do sistema circulatório enquanto o homem contorce sua espinha como um circense para poder cobrir todo o resto do tórax com uma vegetação agreste de tundras e desertos.
II São poucas horas sem o vento áspero no rosto; é preciso aproveitá-las para corrigir imperfeições, redefinir nuances. Nos pés, beirando as praias e baías, o homem cria uma imponente cidade portuária, cercada de bosques de palmeiras e bambus. No rosto entalha uma espécie de taiga, onde eventualmente se destacam contornos de leopardos brancos ou ursos da montanha que hibernam nas gretas que ergue ao redor do nariz.
Nas fronteiras do pescoço, tatua uma série de planaltos e glaciares se estendendo até as orelhas, onde ergue indistinguíveis precipícios. O frio domina o espaço da cela, e uma espécie de cerração glacial impede o homem de sentir com clareza a grande área de charcos em que se afunda seu braço esquerdo durante um breve momento de desatenção; é tempo suficiente para o membro tornar-se um pântano fétido e infeccioso. O homem, então, para proteger-se de uma desventura maior, se põe a drenar os braços com diques e canais escavados fundo na pele pela força da agulha.
III Amanhece outra vez, embora o homem não perceba a pouca variação da luz no inverno ártico; ele reúne forças e se força a começar um largo projeto de irrigação que planejara na véspera: acabar com os áridos contrastes de seu tronco, transformar costas e abdômen num mosaico de culturas que produzam de vinhedos, queijos, e mel até laranjas, rosas e resinas. Nas nascentes de seus mamilos escava poços e minas d’água para abastecer as caravanas de cavalo e gado que atravessam seu tórax para serem vendidas nas fazendas do dorso.
Às margens do mar interior do abdômen costura um próspero centro de veraneio, onde espalha hotéis sofisticados, butiques de luxo, quadras de tênis e um belo cassino de paredes azulejadas. Esculpe seu pênis como um furioso vulcão cercado por bosques de coníferas onde se espalham ruínas de antigos templos destruídos pelas seguidas erupções de magma branco.
Na nuca o homem consegue criar, mesmo absorvido pelos sismos e temperaturas de Okhotsk, uma equilibrada cidade-estado de avenidas largas, plátanos em fileiras, restaurantes nas calçadas; e, mesmo tendo já perdido a sensibilidade nos dedos, ele entalha com precisão pela cidade inúmeros clubes de campo, escolas de música, academias de arte, bibliotecas, hipódromos; e, na ampla praça central, uma suntuosa gare decorada com ornamentos de mármore branco e amparada por um grupo de colunas monumentais.
IV O homem sente um estranho formigamento nas extremidades na ocasião em que começa o grande projeto da expansão ferroviária. Primeiro, constrói a locomotiva que liga as vilas caiçaras na planta dos pés, atravessando as selvas, até algumas cidades das colinas localizadas nos joelhos; depois, um doloroso empreendimento conecta este primeiro ramal da estrada de ferro à tímida estação de trem situada nos ducados às margens das praias do umbigo.
Da capital desenhada na nuca, o homem projeta uma enorme ferrovia que, seguindo os montes de sua espinha dorsal, atravessa o corpo de norte a sul, passando por campos e vinhedos e bifurcando-se na altura do cóccix. Um dos ramais da ferrovia segue até as aldeias de pescado e estanho do pé direito, e outro atravessa um enorme túnel sob o joelho esquerdo, seguindo até o porto no dedo maior do pé, onde agora se destacam armazéns, feiras e atracadouros.
O homem delineia, então, dois novos grandes vales: dos ombros à cintura, entre a cordilheira da espinha dorsal e as serras da costela, e com a água dos dois rios paralelos irriga toda região das costas, criando uma miríade de cidades-estado.
V Quando terminou de tatuar cada centímetro do corpo com precisão, ele pensou se já não era hora de desenvolver um pouco as cidades, aumentar a produtividade nos campos, diminuir a área concedida às paisagens intactas, criar novas colônias agrícolas, assentamentos rurais, serrarias, além de decidir pela perfuração de poços de petróleo na virilha e promover uma plena industrialização do corpo. Criou, assim, um polo industrial nas nádegas, onde concentrou toda a indústria pesada, incluindo a metalúrgica, a petroquímica e as fábricas de tratores.
Ardendo em febre e rangendo os dentes em espasmos de frio, o homem fura no corpo a luz das lâmpadas nas antigas paisagens intocadas, fábricas de curtumes, gás e tinturarias; com fortes espasmos das agulhas em fúria, entalha motores no ventre, fornalhas, caldeiras e guindastes, estaleiros; sobre a natureza tropical das pernas, ergue grandes complexos minerais de borracha e ferro e, triunfante no tremor de artista, tenta pelo menos penetrar fisicamente a indústria em seu abdômen: ao que a agulha lhe faz um excesso de carícias pelo corpo e ele rasga a própria carne para sentir no ar os perfumes do óleo e do carvão.
O homem estabelece, então, uma breve divisão política das partes do corpo: uma Monarquia Constitucionalista ao redor da grande cidade-estado na nuca, nas pernas estabelece regimes presidencialistas, nos pés crescem prósperas repúblicas mercantes, nas nádegas institui uma confederação de feudos industriais reunidos em torno de palácios fortificados, nas costas imperadores-filósofos lambuzam-se no bálsamo dos grandes rios.
Para seguir industrializando o corpo, o homem pensa serem necessárias grandes provisões de combustível e matérias-primas, então cria minas de carvão e ferro nas costelas e nos cotovelos, além de iniciar uma guerra entre os diferentes estados que criara nos braços. A campanha militar é desastrosa para os habitantes do antebraço. A resistência deles, desesperada, contra os generais dos ombros usa o método da terra desolada; irresponsavelmente, tudo que há no caminho entre o ombro e os pulsos do homem se queima. Sua pele é destroçada ao longo de uma retirada apressada, mas o processo de industrialização ganha impulso na região das nádegas, com a crescente demanda por armamentos.
VI Na hora de se deitar, sua mente passeia desde as colinas e pampas dos peitos até a garganta, as praias do abdômen, os capoeirões da cintura. Ao tremer como um eletrocutado, sangra de suas repetidas investidas nos mesmos pontos: na umidade da cela só o que faz é misturar o sangue à tinta e à terra; trêmulo e cansado das turvas feridas das paisagens, resolve reconstruir as cidades para que estas voltem a parecer justas e harmônicas, em vez de aquela anarquia de petróleo e lama. Para isso, revitaliza os rios contaminados pelos metais das indústrias, moderniza as docas, urbaniza os cortiços, abre largas avenidas e demarca parques para proteger os poucos esboços de paisagens que ainda restam intocados em seu corpo.
VII Suas mãos deveriam ter permanecido como os últimos pontos intocados do corpo; só ali sentia ainda a pele em si como a própria paisagem. As agruras do clima, no entanto, levaram suas mãos ao desastre do frio; para aquecê-las, o homem se pôs a pintá-las com a agulha, como se aquelas fossem verdadeiros fiordes. Desiludido com o desenvolvimento irresponsável das paisagens no corpo, com a insuficiência das medidas que tomara para conter o flagelo, amargurado pela dor das indústrias que misturam terra e tinta à sua carne, resolve por fim promover um grande dilúvio no corpo e, assim, acabar com aquela calamidade. Com a agulha, começa a grande inundação; as águas negras vão subindo e tomando a pele desde os pés até o pescoço. A última sensação do homem, antes do frio apagar de vez a sensibilidade, é a luta feroz entre um cachalote e um marlim gigante na cavidade funda e vazia de seus olhos.
Esse texto foi publicado no plástico bolha nº26: download PDF