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O Legado de Lima Barreto

Além de Triste fim de Policarpo Quaresma, obra aclamada e matéria obrigatória nas aulas de literatura do colégio, Lima Barreto escreveu pelo menos dois outros ótimos romances: Recordações do escrivão Isaías Caminha e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá.

Recordações do escrivão Isaías Caminha
O primeiro, escrito em 1907, conta a história de um rapaz vindo das Minas Gerais para o Rio de Janeiro, em busca da carreira de estudante universitário. Chegando ao Distrito Federal, o rapaz não encontra trabalho de imediato, mesmo contando com a recomendação de um deputado. O rapaz vai gastando o dinheiro que a mãe lhe dera quando ele partiu, até que se vê morando em pensões bastante pobres. Não consegue arranjar trabalho, mesmo os mais humildes, mas por fim descobre emprego no jornal O Globo, como imediato. Ali, por cair nas graças do dono do jornal, galga posições e fica estável. No entanto, não consegue satisfazer seu sonho de vida escorreita e idealista que tinha quando partiu das Minas Gerais.

Passagens e expressões que muito me interessam na obra Recordações são, por exemplo, estas: “Raul Gusmão, com aquela covardia moral que o caracterizava[...]”; “Senti-me humilhado, esmagado, enfraquecido por uma vida de estudo, servir de joguete, de irrisão a esses poderosos todos por aí. Hoje que sou um tanto letrado sei que Stendhal dissera que são esses momentos que fazem os Robespierres”. Nelas, Barreto exprime, como lhe é peculiar, uma sinceridade de espírito muito grande, embora muitas vezes destemperada, o que aliás lhe trazia despeitos inúteis que consumiam sua alma e enfraqueciam uma vontade que não desejava sucumbir à bebida, a qual por fim abreviou sua vida.

Também no terreno amoroso, Caminha tinha frases de tirar o fôlego, como a seguinte: “Ainda hoje, depois de tantos anos de desgostos dessa relação contínua pela minha luta íntima, precocemente velho pelo entrechoque de forças da minha imaginação desencontrada, desproporcionada e monstruosa, lembro-me — com que saudade! com que frenesi! — do inebriamento que essa mulher deu aos meus sentidos, com o seu perfume violentamente sexual, acre e estonteante, espécie de requeime das especiarias das Índias... Ergueu-se e foi lentamente pelo corredor em fora; e eu segui com o olhar a sua nuca tentadora com tonalidade de bronze novo”.

Em Recordações, Lima Barreto ainda está afiando a escrita; nota-se, por exemplo, um exagero no uso dos advérbios, sobretudo os terminados em -mente, os quais roubam leveza da leitura, conforme ensinava o falecido mestre tradutor Daniel Brilhante de Brito.

Triste fim de Policarpo Quaresma
Triste fim de Policarpo Quaresma é, sem dúvida, a obra mais conhecida do escritor. Nesse romance, Lima Barreto trata da vida de um patriota que enxerga tudo de bom e de melhor nos produtos nacionais. Aos poucos, porém, frente a decepções, Policarpo vai mudando de ideia. Na ‘terra que tudo dá’, as saúvas impedem a cultura mais simples de prosperar. Até mesmo o grande ditador Floriano Peixoto revela-se-lhe um político de araque, sem honra e respeito pelo bravo soldado. Policarpo termina encarcerado, sem saber ao certo como e por que foi parar na prisão.

O Policarpo Quaresma virou um símbolo do nacionalismo rasteiro, da preferência por determinados produtos ou atividades culturais apenas porque são nacionais, não porque são bons. Mas essa é uma visão parcial da obra. O entusiasmo do Policarpo Quaresma é bastante exagerado, porém é preferível, num homem, ver esse interesse pela pátria a ver um cinismo barato, que sempre fala mal do país, sem desejar recuperá-lo, sendo oportuno lembrar a frase do livro bíblico do Apocalipse: “Nem o frio, nem o quente, mas o morno, eu vomito”. No cinema, o ator Paulo José fez uma interpretação formidável do Policarpo Quaresma. É um dos poucos filmes brasileiros de que gosto.

A crítica recebeu bastante bem o romance sobre o herói entusiasmado: “O Policarpo Quaresma foi escrito em dois meses e pouco, depois publicado em folhetins no Jornal do Comércio da tarde, em 1911[...] Os críticos generosos só se lembraram diante dele do Dom Quixote”, escreveu Barreto em seu Diário íntimo, no ano de 1916.

Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá
Em Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, Lima Barreto vai à desforra contra os jornais que castraram os sonhos do escrivão Isaías Caminha. “Um jornal, dos grandes, tu bem sabes o que é; uma empresa de gente poderosa, que se quer adulada e só tem certeza naquelas inteligências já firmadas, registradas, carimbadas”, escreve o autor. E ainda dialoga com Machado de Assis, cujo nome é emprestado ao personagem-narrador do romance, acrescentando à miséria da nossa espécie a afirmação de que “a eternidade da nossa espécie repousa sobre bases sólidas”, bases sólidas essas que, a seu ver, interrompem a frutífera atividade intelectual das moças quando elas se casam e “fecham as gramáticas, queimam as músicas”, começando “a repetir a história igual e enfadonha de todos os casamentos[...]”. Não obstante essas reflexões, dentre os romances de Lima Barreto Vida e morte é o mais esperançoso — ou, melhor dizendo, o mais seguro de sua dignidade. M. J. Gonzaga de Sá dedica seus últimos dias de vida a educar o afilhado. Qué-lo um homem formado, malgrado o que as letras possam trazer-lhe de dúvidas e incômodo diante do mundo.

Fazendo votos de que os leitores conheçam mais a obra do escritor quixotesco, transcrevo, por fim, uma ótima frase de Barreto sobre a Arte: “A Arte seria uma simples álgebra de sentimentos e pensamentos se não fosse assim, e não teria ela, pelo poder de comover, que é um meio de persuasão, o destino de revelar umas almas às outras, de ligá-las, mostrando-lhes mutuamente as razões de suas dores e alegrias, que os simples fatos desarticulados da vida, vistos pelo comum, não têm o poder de fazer, mas que ela faz, diz e convence, contribuindo para regra da nossa conduta e esclarecimento do nosso destino”.

www.daniellourenco.com



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº26: download PDF

 

 






 

 


 

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