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O mestiço e negro na música brasileira (2)


Os anos 1960, no Brasil, se marcaram pela diversidade em termos musicais. Concomitantemente com a MPB, por exemplo, que apostava na ideia modernista das três raças, surgiram na mesma década sensibilidades mais negras que mestiças, como é o caso de Jorge Ben (atual Jorge Ben Jor), que lançou em 1963 o LP Samba esquema novo (Philips). Esse disco inaugurou o procedimento do músico, presente em toda sua trajetória, de aludir ao universo negro em termos poéticos e musicais. As letras, de maneira recorrente, comentam as origens africanas da tradição com a qual Jorge Ben se identifica, evocando, entre outros elementos, entidades do candomblé e santos católicos apropriados pelos negros. São Jorge é o santo mais citado nas composições de Jorge Ben, o que tem a ver, além do sincretismo religioso, com o fato de serem homônimos. Quanto à musicalidade, Jorge Ben cria um samba estilizado que alguns críticos, à época, classificam como samba-rock . Armando Pittigliani, o produtor do disco, fala na contracapa, com bastante conhecimento de causa, sobre a maneira percussiva de Jorge Ben usar o violão:

“O samba de Jorge Ben, da batida de seu violão à linha melódica e letra de suas composições revela um novo caminho nos horizontes de nossa música popular. [...] Seu inato talento musical proporcionou-lhe descobrir uma nova puxada para o nosso samba, fazendo do violão um instrumento, sobretudo, de ritmo. Na sua batida tanto se destaca o baixo como o desenho rítmico de sua pontuação na maneira toda sua de tocar. Um exemplo disso é o fato de várias faixas deste disco não contarem com o contrabaixo na orquestração. Somente o violão de Jorge já dá a necessária marcação dispensando, portanto, aquele instrumento de ritmo. O balanço do acompanhamento repousa quase sempre no seu violão”.

A década de 70 começou com o som de Tim Maia, que introduziu no Brasil, de maneira idiossincrática, o estilo soul music. A canção “Primavera” (LP Tim Maia , Polydor, 1970), de autoria do parceiro Cassiano, tornou-se a trilha sonora do verão de 1970. Se o tema da letra segue os clichês das canções sentimentais, a interpretação de Tim Maia, assim como o arranjo, congruente com o espírito soul, causou a impressão de que algo inusitado teria acontecido com a música popular no Brasil. Depois da experiência inaugural de Tim Maia, surgiram outros músicos e grupos musicais no Rio e em São Paulo, responsáveis pelo surgimento da black music (expressão usada à época para designar os grupos de soul music, ou funk) no Brasil, como Gerson King Kombo, Toni Tornado e as bandas Dom Salvador e Grupo Abolição e Black Rio. Esta formou-se em 1976 e trouxe como novidade a fusão do samba com o soul e o jazz, além de reunir instrumentistas e arranjadores experientes — como argumenta José Roberto Zan em artigo sobre a banda Black Rio para a revista ArtCultura (Revista do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia, v.7, n. 11, julho-dezembro de 2005), com instrumentistas e arranjadores experientes.



Constituídos preferencialmente por músicos que professavam a ideologia dos movimentos de afirmação da cultura negra, esses grupos orientavam-se pelo lema black is beautiful e pelas interpretações virtuosísticas de cantores norte-americanos como James Brown, Marvin Gaye, Isaac Hayes e grupos como Earth, Wind and Fire e Commodores, que criavam ritmos basicamente dançantes. Essas formações musicais eram responsáveis pelos bailes funk, que reuniam milhares de pessoas em clubes, como o Renascença, no bairro carioca Andaraí, e quadras de subúrbios.

Ao longo dos anos 70 Jorge Ben começou, aos poucos, a fazer uso do soul, de início incorporando-lhe a orquestração e a temática do orgulho negro . Já em 1970 ele lança o disco Negro é lindo ; em 1978 abraça o soul definitivamente, no LP A banda do Zé Pretinho (Som Livre), e no ano seguinte reafirma essa tendência com o LP Salve simpatia (Som Livre). Em show de Jorge Ben de 1982, Energia , realizado no Teatro Fênix e produzido e gravado pela TV Globo, Tim Maia subiu ao palco e cantou com ele a música “Lorraine”. E mais de uma década depois, em 1993, quando o nome do compositor já havia mudado para Jorge Ben Jor, em “Moça bonita”, do disco 23 Jorge Ben Jor (Warner Music), Jorge, não por acaso, clamava por Tim Maia.

Com sua chegada ao Brasil, a soul music introduziu no cenário cultural questões relativas ao movimento dos direitos civis dos negros norte-americanos. O leitor poderia indagar como eu encontraria indícios de posicionamento político num tipo de música que — ao contrário da tradição das protest songs , ou da chamada canção engajada brasileira, que confere proeminência à mensagem contida na letra — se caracteriza, de maneira diferente, pelo ritmo dançante e pelas letras cujo teor festivo, na maioria das vezes, passa longe da reflexão política. E eu responderia dizendo que, diferentemente dos compositores de canções de protesto, que utilizam o discurso, os músicos soul passam seu recado pela atitude assumida, ao utilizarem não apenas o som associado à cultura negra como também seus signos: o cabelo ao estilo Black Power; a indumentária com camisas estampadas, cordões prateados no pescoço e calças boca-de-sino; a coreografia que recorre muitas vezes a uma dança em grupo com movimentos sincronizados.

Mas o fato é que se criou, com o advento da cultura soul, uma polêmica em torno do conceito de autenticidade . Para os críticos musicais de viés nacionalista e defensores da ideia de MPB, um estilo musical originário do triângulo racial que constituiria a brasilidade, a adoção por músicos locais de um ritmo estrangeiro revelaria uma espécie de macaqueação da cultura musical do Tio Sam e uma perda das verdadeiras referências brasileiras. José Roberto Zan, em artigo citado, referiu-se ao fato de que os críticos que se orientavam pelo projeto nacional-popular associaram a estética da banda Black Rio a uma postura colonizada em termos.

Foi a partir dessa discussão que os fundamentos modernistas da crítica musical perderam a hegemonia e passaram a concorrer com uma proposta cultural que fortalecia o elemento negro e, em muitos casos, negava o postulado da miscigenação. E foi também a partir daí que os termos autêntico e nacional passaram a ser ressignificados. Na medida em que as chamadas minorias negras passaram estrategicamente a investir num conceito de nação que não se confunde com o Estado-nação, mas com populações negras e periféricas que habitam territórios localizados no Brasil e em outras regiões do planeta, ser autêntico passou a significar assumir a identidade negra.




Esse texto foi publicado no plástico bolha nº26: download PDF

 

 






 

 


 

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