Mala Desfeita
Vivian Pizzinga
Abrindo a mala, desfez-se de tudo, desfez-se da mala, das roupas, da vida. A mala vazia, diante de si. A mala aberta, vazia e calada. Abriu-se de tudo que antes trazia, fechou-se de ontens, de dias, de quases. Queria um novo espaldar. Cadeiras quebradas não a sustentavam. A casa vazia e a mala aberta, a vida murchava. A mala murchara, a casa embargara. A vida alongava-se pra frente e pra trás, a vida era aberta, era incerta, era torta, era morta. A mala já morta olhava sem rumo, a mala opaca de dias felizes. A mala encarnava um passado distante. A mala cansada de muitas viagens, abrira-se toda. E ela, diante da mala, diante de si, diante da casa, vazia, silente, sonâmbula, pensava em bobagens. Abria-se a mala sem nada a lhe dar. E ela, então, levantou-se. Diante da mala, diante de si e diante da vida, guardada na casa, deserta. Olhou para os lados, míope que era. Via-se toda, e sem nada por perto, e sem nada por dentro. Via-se ausente. E a mala também. E a casa, de vidro. Paredes translúcidas. Não havia mais nada. Apenas ela, apenas a mala. Sobre o chão, descascado, azedo. E a vida, descascada, amarga. E a mala, sem casca, sem casa, sem rumo. Ela e a mala, dentro da casa, cansadas da vida, viagens, visões, não tinham o quê. Não tinham qualquer. Não sabiam de onde, não sabiam pra onde. Não se sabiam, tampouco. Não havia o que fazer, e o mundo caía. sobraram lembranças, soçobraram vinganças — a vida era rouca, a mala era surda, a casca era tênue. Acabara-se o prumo, a casa apagou-se.
Esse texto foi publicado no plástico bolha nº25: download PDF