Jean-Paul Sartre: condenado à liberdade - Parte II

A náusea é uma experiência que representa a fonte da percepção existencial; vem a ser um símbolo de autenticidade por revelar o âmago da sensação de existir. Deste modo, ela acaba por anular o peso de todo o valor pré-estabelecido. Fugir da existência é impossível, “existir é ser, apenas. Tudo é gratuito, este jardim, esta cidade, eu mesmo. Quando acontece de nos darmos conta, isso nos torce o coração e tudo passa a flutuar”. Essas são as questões existencialistas por excelência: como lidar com a liberdade absoluta e com o absurdo que é estar vivo. A filosofia existencialista se sustenta o tempo todo sobre essas bases. Nas memórias de Simone de Beauvoir, companheira de Sartre, ela relata que Raymond Aron, amigo do casal, quando volta de berlim para paris, vai com eles ao bar. Ali Simone se dá conta do que ela procurava na filosofia. Aron, tomando um coquetel de abricó, aponta para seu copo, olha para Sartre e diz: “como vê, meu caro, fazer fenomenologia é ser capaz de falar deste coquetel e, dele, fazer filosofia”. Simone se emociona diante do que vê; porque, para ela, fazer filosofia era justamente isto: recriar a experiência cotidiana voltando-se para as coisas e capturando-as exatamente do modo como elas se apresentam para as ideias.
Depois da guerra, ele funda a revista
Les Temps Modernes. Muitos acusavam Sartre de ser uma influência perniciosa para a juventude. Violentamente atacado, ele também foi extremamente mal interpretado. Sartre recebeu críticas ferozes como esta que saiu no jornal de direita
Le Figaro: “não há obra mais ofensiva ao ser humano, mais degradante que a sua. o ódio é a sua profissão e escrever é o seu
hobby”. Isso porque queria desconstruir os costumes, dissolver as instituições e preconizar a imoralidade. Mas Sartre era sério por demais e sua ética era muito mais dura do que a de qualquer moralista da época. se não há lei moral a ser corroborada e se cada um deve viver sob a égide de seu próprio bom senso, a responsabilidade sobre as ações recai toda sobre o indivíduo que a pratica. Portanto, não há desculpas.
Sartre escrevia em meio ao público, sentado em seus cafés prediletos em saint-Germain-des-prés. ao contrário da maioria dos filósofos, que se recolhem em bibliotecas e trabalham imersos em solidão e silêncio, Sartre achava propício escrever em lugares lotados de gente. “A única tarefa de minha vida era escrever. Eu queria escrever e isso não era uma questão, isso não foi jamais uma questão. Apenas, ao lado dos trabalhos propriamente literários, havia o resto, quer dizer, tudo: o amor, a amizade, a política, as relações comigo mesmo... o que é que eu sei?”
O ser e o nada foi escrito ao mesmo tempo que o nazismo ocorria e foi publicado em 1943, no auge da segunda Guerra Mundial. A principal tese do livro está exposta na conferência “o Existencialismo é um humanismo”. Seu princípio é “a existência precede a essência”, que quer mais ou menos dizer que a realidade concreta é anterior a qualquer abstração sobre ela. A primazia da existência sobre a essência implica a condição inacabada do homem, que precisa se criar, se fazer, se definir em sua própria existência. Desse modo, Sartre afasta-se de uma tradição que afirma que o homem possui uma essência intrínseca e prévia e por isso está limitado e determinado por ela. Sartre assume que, na consciência do homem, refletir e existir são o mesmo e, portanto, é sua consciência que determinará o correr de suas ações e o sentido de sua própria vida. Desse modo, denuncia que o homem erra ao acreditar que deus o criou. Para ele, é o homem que cria a ideia de Deus. Nesse sentido, cada um é responsável pela realidade que cria para si próprio e pelos efeitos que essas formulações causam no mundo. O homem deve, portanto, assumir sua condição de liberdade e, virtuosamente, ter uma existência autêntica.
Pequena Advertência Teórica:
Existem vários tipos de existencialismo e é falaciosa a ideia de que Sartre inaugurou o movimento. Kierkegaard foi inspiração para as reflexões existencialistas, e suas ideias chegaram à França nos anos 1920 e 1930, graças aos imigrantes russos Nicolau Berdiáev e Leon Chestov. Mas as maiores influências foram Heidegger e Husserl. Este, tendo como lema “de volta as coisas mesmas”, desenvolve o método fenomenológico, na intenção de superar a oposição entre
sujeito e
objeto, entre
realismo e
idealismo. Para Husserl, a consciência se caracteriza pela intencionalidade e sua experiência reflexiva, em que o mundo, para ser capturado e ter seu modo de constituição apreendido, precisa “ser colocado entre parênteses”. Mas a filosofia existencial de Sartre é singular e por isso vai além: ele não apenas coloca o mundo entre parênteses, mas captura-o em hífens, infere travessões, joga-o frente ao vazio dos dois-pontos e deixa as interpretações terminarem em reticências...
Sugestões de Leitura:
Sartre, Jean-Paul.
O muro.
— A náusea.
— Entre quatro paredes
— Idade da razão
— O existencialismo é um humanismo; A imaginação; questão de método in Os Pensadores. Editora abril, 1973.
— O ser e o nada.
Da Penha, João. O que é existencialismo. Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense, 1992. Rowley, Hazel. Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre Tête-a-Tête. Editora Objetiva, 2006.
COHEN-SOLAL, ANNIE. Sartre Un Penseur pour le XXIe Siècle. Decouvertes, Gallimard, 2005.