O mestiço e negro na música brasileira (1)
Mário de andrade postulou, no Ensaio sobre a música brasileira, de 1928, a recriação das sonoridades populares, sobretudo as folclóricas, no âmbito da música de concerto. Esse procedimento em muito contribuiria, segundo ele, para a constituição da identidade nacional, na medida em que os traços essenciais da brasilidade estariam contidos nas cantigas do povo. assim, caberia aos compositores “interessados” nesse projeto construtivo pesquisar os sons populares cujas origens remontam às “três raças” (a ibérica, em si mesma híbrida, a amarela, representada pelo indígena, e a negra ou africana) e desenvolvê-los num registro erudito. Heitor Villa-lobos, entre outros músicos do período modernista, levou a cabo essa proposta de mário, ao mostrar-se atento para os sons miscigenados das mais diferentes regiões do país — do choro carioca às toadas tradicionais de outros estados — e trabalhá-los em formas sinfônicas ou camerísticas.
Algumas décadas depois, em meados dos anos 60, foram os compositores populares que deram continuidade à prática de recriar os sons oriundos das três etnias em questão. Esse fenômeno aconteceu a partir do surgimento de uma nova categoria no cenário cultural do país: a Música Popular Brasileira, representada pela sigla MPB. Em comum com a proposta modernista, a MPB não apenas visava fortalecer a identidade nacional pela música (no caso, a popular) como também procurava representar o brasil por esse triângulo racial. Assim, compositores da estirpe de Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo atuaram no sentido de reunir em suas canções informações poéticas e musicais tanto locais quanto universais, tanto referenciadas à “baixa cultura” quanto à “alta”, burilando-as, como na receita modernista, num registro que destoava da concepção corrente de cultura popular.
Os dois compositores citados criaram seus estilos musicais com base no processo de selecionar determinados repertórios legados pela tradição, conciliando-os, a exemplo dos músicos bossa-novistas, com informações provenientes do jazz e outros gêneros estrangeiros. E de maneira semelhante a Villa-Lobos, que transpunha músicas folclóricas ou populares para um registro erudito, os emepebistas, embora operassem no registro considerado popular, recriavam sonoridades locais — certa tradição do samba carioca, no caso de Chico Buarque, e ritmos pernambucanos, no de Edu lobo — pelos parâmetros de sofisticação musical inventados pela bossa nova. Investiu-se também na ideia de mpb como o centro de confluência de questões políticas e culturais, fazendo com que a canção popular, mais do que qualquer outra forma artística, comentasse o período conturbado que se seguiu ao golpe militar de 1964.
Foi a partir desse momento que o compositor popular no brasil agiu como crítico e intelectual. A atuação crítica se deveu à retomada do estilo bossa-novista de compor, que utilizava, como os artistas vanguardistas do início do século XX, recursos metalinguísticos e intertextuais. Lembremos, a propósito, que a formação de Tom Jobim não passou por conservatórios tradicionais, mas por professores particulares que valorizavam atitudes experimentais no campo artístico, como é o caso de Hans-Joachim Koellreuter, músico alemão que, ao aqui se radicar, no final dos anos 30, introduziu a música dodecafônica e fundou o movimento música viva. A educação de Tom deveu-se também a figuras ligadas ao modernismo que aqui se instaurou, tais como Tomás Terán, pianista espanhol que veio morar no brasil em 1930, a convite de Villa-Lobos. E não são poucos os músicos e críticos que veem convergências nas sensibilidades musicais de Villa-Lobos e Tom Jobim. Edu lobo, por exemplo, em entrevista a mim concedida, declarou que “a bossa nova tem a alma do Villa”.
Se o procedimento crítico remetia ao próprio proces-so de composição, a conduta intelectual, por outro lado, voltava-se para o compromisso do compositor com o seu tempo. Trata-se aqui de uma concepção mais ampla de intelectual, que remonta à experiência de vincular a arte e o conhecimento às questões da vida pública e teve início com o engajamento de artistas e escritores franceses no caso Dreyfus, na virada do século XlX. Os modernistas, de maneira geral, atualizaram essa atitude, procurando vincular a arte com a vida. Entre nós, os artistas vinculados ao movimento assumiam compromissos públicos, a exemplo de mário de andrade e Villa-Lobos, que desenvolviam projetos culturais, ocupavam cargos e envolviam-se em polêmicas culturais.
Os músicos da mpb incorporaram do modernismo, junto com o ideal da mestiçagem, a concepção filosófica fundamentada na ideia de “arte interessada”. A bandeira da mestiçagem, portanto, nesse contexto, significou não apenas uma receita estética, mas também e principalmente um projeto construtivo voltado para a conformação da identidade brasileira.
Na próxima coluna, discutirei o tema da negritude na música brasileira.