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Mar de Posídon, Mar de Iemanjá ou Vamos beber Calcanhotto


Após uma incursão pelo heterônimo Partimpim (2005), o CD Maré (Sony-BMG, 2008) traz de volta o ortônimo Calcanhotto e, mais uma vez, o mar como tema. Durante a temporada portuguesa do show Maré, a cantora vivenciou um surto psicótico devido a um coquetel de remédios, relatado em primeira pessoa em seu livro de estreia Saga lusa (Cobogó, 2008). Phármakon, traduzido para latim por medicamentum, significa qualquer substância pela qual se altera a natureza de um corpo — daí veneno, droga e remédio. Segundo Jacques Derrida, “o phármakon, mesmo usado para fins terapêuticos como um remédio, não é inofensivo”. Em Saga lusa ocorrem duas viagens: uma química, que leva à alteridade; outra “em alto-mar, a meio caminho entre a Europa e a América”, que traz a ipseidade. Se Odisseu, após sua viagem, precisa se fazer conhecer para os seus, Calcanhotto, para si mesma. Mas sobre o livro falaremos em nossa próxima coluna. Voltemos ao CD. Assim como a contemplação do mar nos convida para navegar, Maré seria a carta de navegação de Calcanhotto por toda sua polissemia. Limitar-nos-emos ao mar mitológico, ao mar de Posídon, ao mar de Iemanjá e ao imaginário marítimo.

Pelo que se pode depreender da cosmogonia homérica na Ilíada, Oceano é um rio imenso que habita um espaço informe, anterior à existência do Céu e da Terra e Tétis, uma massa d’água que ainda não se diferencia muito de Oceano. A origem do mundo e dos seres relaciona-se, portanto, ao elemento hídrico, cujos principais atributos são a fluidez e o dinamismo.

Nem a grande força do Oceano de corrente profunda
De onde todos os rios e todo mar
E todas as fontes e os poços profundos fluem
(Hom., Il., XXII, 95–97)

Como os deuses em Homero se revelam em suas ações e genealogias, Oceano se uniu a Tétis e gerou todos os seres, conforme o verso “Oceano, gênese dos deuses, e a mãe Tétis” (Il., XIV, 201 e 302). Quando o mundo se organiza sob a ordem da cultura, no centro dos principais acontecimentos encontra-se Zeus, exercendo o princípio de soberania e fecundação; por isso, Oceano e Tétis, o casal original, segundo Homero, passam a viver na periferia do universo e não mais dormem juntos. Por terem perdido seu poder de geração, tornaram-se deuses ociosos. Zeus, no entanto, divide o poder com seus dois irmãos: a Hades coube o mundo ctônio e a Posídon, o mar. Há, na mitologia grega, muitas divindades associadas aos rios e ao mar, mas é justamente a partilha do universo que outorga a Posídon a soberania das águas salgadas simbolizada pelo seu tridente. Os navegadores sacrificavam touros ao deus em prol de travessias seguras pelas vias úmidas de Posídon, e os pescadores de atum consagravam-lhe oferendas em alto mar e ofertavam-lhe as primícias de suas pescas. Com a nereida Anfitrite, rainha do mar, Posídon gerou Tritão, um ser híbrido, um homem-peixe, representado por uma concha, kókhlos, que também serve de instrumento de sopro. Existe em grego outro vocábulo para concha, kónkhe, que, por empréstimo linguístico, corresponde ao latim concha, -ae. Os meninos, levando essas conchas aos ouvidos, acreditam ouvir o rugir do mar e suas ondas. Em seu simbolismo, as conchas evocam as águas e seus sons.

Na Nigéria, Iemanjá, mãe dos peixinhos, (< yeye, mãe + omon, diminutivo de animais + edja peixe), uma grande-mãe africana, filha de Olocum, divindade dos mares, era o orixá do rio Ogum. Com o advento dos Iorubás no Brasil, seu culto foi transposto para o mar, tornando-se, assim, a deusa das águas salgadas e também protetora dos homens do mar e oxum, orixá do rio homônimo, a deusa das águas doces. No entanto, a saudação ritual de Iemanjá, Odoiá, mãe do rio, (< odo, rio + ya, mãe) conserva sua relação original com o rio. O sincretismo religioso também foi responsável pela sua associação com as sereias europeias seirenes, as que encadeiam, atraem < seirá, -âs, corda, laço, armadilha, segundo Carnoy e as iaras ameríndias < yara, em tupi senhora, sereias dos rios e lagos. Segundo Agenor Miranda Rocha, o professor Agenor, é de Iemanjá que “vêm todas as águas da terra”.

No segundo CD da trilogia dedicada ao mar, de seu maior poeta Dorival Caymmi, Calcanhotto escolheu “Sargaço Mar”, acompanhada ao violão por Gilberto Gil. O “eu” da canção de Caymmi está diante de uma “doida canção” que, num jogo de palavras e sonoridade com odoiá, saudação ritual à deusa, já prefigura sua natureza divina. Concluída essa canção, só lhe resta, então, alucinado, lançar-se no mar para viver em unicidade e uníssono com Iemanjá. Curiosamente, o verbo alucinar, do latim (h)allucinari, é um derivado do grego (h)alúein, estar perturbado, perplexo. Sabe-se que o poder de sedução da palavra cantada na Antiguidade tinha como paradigma o canto das sereias. O canto de Calcanhotto segue os três movimentos que a própria canção sugere; por isso, transcrevemos a canção como consta no encarte do CD, acrescentado-lhe a numeração dos versos.

Quando se for
Esse fim de som
Doida canção
Que não fui eu que fiz
Verde luz verde cor
De arrebentação
Sargaço mar
Sargaço ar
Deusa de amor, deusa do mar
Vou me atirar, beber o mar
Alucinado, desesperar
Querer morrer para viver
Com Iemanjá

Iemanjá, Odoiá
Iemanjá, Odoiá
Iemanjá, Odoiá

Do verso um ao doze, encontramos o “eu” diante da doida canção da deusa. A inversão do atributo doida no sintagma, contrariando-lhe a ordem natural em português, enfatiza sua espécie e, ao mesmo tempo, a caracteriza em sua diferença com as canções e harmonias humanas, conservando-se, porém, na clave da sensação. O poeta fabrica sonoramente seu poema de modo a idear a canção e presentificá-la por meio de aliterações das sibilantes e fricativas surdas e sonoras; de repetições dos vocábulos verde, sargaço e deusa, conferindo-lhe ritmo; das rimas, de ecos e também da quebra da expectativa, até o quinto verso só há vocábulos monossílabos ou dissílabos, inclusive o quarto verso, um hexassílabo composto apenas por monossílabos, “Que/ não/ fui/ eu/ que/ fiz”, contrasta com o sexto, um pentassílabo, “De a/rre/bem/ta/ção”, com um único vocábulo polissílabo — enfim a linguagem se fazendo música divina. O segundo movimento se compõe apenas do décimo terceiro verso, “Com Iemanjá”, em que pela primeira vez é dito o nome Iemanjá, presentificando seu ser numinoso. Em seu canto, Calcanhotto imprime a cada nota a mesma duração ressaltando-o. O terceiro, o refrão, “Iemanjá, Odoiá”. Adriana Calcanhotto, como cantora e compositora, sabe que essa canção não carece de arranjo; basta-lhe um violão para evidenciar as palavras e a melodia de Caymmi e o seu próprio canto e emissão. Em Maritmo (columbia, 1998), o primeiro CD da trilogia, Calcanhotto já gravara em dueto com próprio Caymmi, “Quem vem pra beira do mar”, em que se evidencia o irresistível e fatal chamado das águas de Janaína.

“Sargaço Mar”, a última faixa do CD, dialoga tanto com a canção de Péricles “Cavalcanti Porto Alegre” (“nos braços de Calipso”), vista em nossa última coluna numa relação de ruptura com o relato homérico, quanto com a primeira faixa “Maré”, de Moreno Veloso e Adriana Calcanhotto, em que o mar, representado como imagem e linguagem, se justapõe ao mar evocado por meio do canto de uma de suas sereias. O título do CD contém uma ambivalência, isto é, pode ser lido tanto como Maré, o movimento das águas do mar salgado, quanto Mar é, deixando ao ouvinte todas as suas possibilidades de predicação, além das apresentadas na carta de navegação de Calcanhotto, e termina com uma evocação ritual a uma de suas deusas, Odoiá Iemanjá, Odoiá. Adriana Calcanhotto apresentou o show Maré apenas em um final de semana de junho no Rio de Janeiro. Ficamos todos aguardando sua volta.

Para o nosso editor Paulo Gravina.



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº25: download PDF

 

 






 

 


 

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