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Manhatã

Augusto de Guimarães Cavalcanti


Sair da tela e ir para o cinema, o nosso galho é em Manhatã. E se Duchamp depois do urinol virou profissional em xadrez. Por que não podemos nos projetar pelos tetos, chão e pela parede? Os paraísos descartáveis somos nós, a TV explode suas estruturas provisórias na arquitetura do instante. A nossa casa não passa de um processo mágico; realmente é bom estar de sunga e pedra na mão para dar boas vindas ao rio Hudson. Somos todos arrastados pelos carros, o pássaro acaba de abrir sua jaula: calamos para casa, assaltados e felizes. Os santos de Wall Street baixaram aqui no terreiro de Battery Park na entidade de Leviatã. And the girl from the Orange County goes walking and when she passes each one the crowd goes... each day when she walks through Fifth Avenue she looks straights ahead not at me... sou um fio telefônico agonizando pelas veias pré-diluvianas entre cafés noturnos e armas. Os artesãos da tempestade estão aqui. E se é para um carro arrasar o meu destino, que seja uma Ferrari. The last poets observam que ali na Broadway as deusas passam supersônicas sereias pelos hotéis nublados. Don’t walk no Apocalipse. Estão presentes aqui os cafajestes Barretão, Domigos de Oliveira, Ruy Guerra, Gustavo Dahl, Cacá Diegues, Jabor and the godfather, Papai Glauber de Xangô. Os enigmáticos sinais em elétricas guitarras são nossas asas deltas para o pouso nesses óculos escuros. Os poetas são os novos índios aqui na Seventh Avenue. Eclipse nenhum. Ou quase, quase. São 39 horas da tarde. Naquela adorável hora noturna de Ford estarão os luxos letais. O velho paralítico continua sua corrida, me acostumei com vexames. O prazer de ser vigiado (love ruins everything). As paredes pulsam. Aqui posso perceber bem tudo respirar como se meu batimento cardíaco controlasse o pulsar dos tijolos que mais parecem batimentos da casa que respira pelos tetos de móveis flutuantes com gás de hélio. Esse foi o balé de tijolos mais bonito que já vi na vida. Paranóia com brócolis. Paranóia com brócolis. E se Ginsberg decretou The Fall of America, eu ouço Lou Reed no banco de trás. NYC e seus dândis de dendê. Intergaláticos Guggeinheims aplaudem a orquestração de janelas desperdiçadas, as auto-estradas de venezianas nos fazem esquecer as calçadas de vidro. Os afogados de Connecticut se derretem nas cicatrizes dançantes do Hudson. Eles são os poemas visuais em expansão fora dos bolivianos do Park Avenue e seus martinis desolados. Manhatã, Manhatã! O passageiro da lua Michael Jackson prepara ilhas teleguiadas para a santa CIA. Tiroteios em atalhos de plástico, o resto explode. Pindorama Avenue manda um abraço. O acidente faísca diamantes. E mesmo assim o sorriso é de pressa e de uma beleza nunca antes imaginada ou conquistada. E por que não sambar com rock and roll?



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº24: download PDF

 

 






 

 


 

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