Como a todos os homens, o tempo me empresta um rosto. No entanto, dele só conheço a metade. A outra, são distâncias e estrelas. A parte conhecida vigia as horas dissipadas de cada dia. A outra, esconde os jardins de um império persa, onde, outrora, o filho de um rei se perdeu.
Durante o sono, as duas metades se juntam. Então, a casa gira devagar, os lençóis flutuam como águas calmas e cada objeto ocupa sem protesto o seu lugar. O sol se revela, o rosto mais uma vez se separa, e, com o lado familiar, preparo o café, enquanto o outro oferece os sonhos da noite à fome insaciável do esquecimento.
No espelho, me maquio de maneira a ninguém perceber a metade oculta. Porém, certa vez, um menino olhou para mim e riu. Ri também. Quem sabe se não era o filho do rei. Não sei. Deixei aquele menino seguir com o meu segredo, tão sem importância quanto os pequenos peixes que acompanham a dança da lua e das marés.
Esse texto foi publicado no plástico bolha nº24: download PDF