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[O meu irmão João tem uma raiva nos colarinhos]

Rita Brás


O meu irmão João tem uma raiva nos colarinhos
quando for para o trabalho mais velho,
quando tiver que cortar os pulsos às namoradas,
quando não for capaz de degolar com um riso
os pedidos da mãe.

Como ainda não tem medo de enfrentar
as maratonas do deserto com uma chave,
ou através dum empréstimo ao banco para a sua casa,
ultrapassa as fileiras de mendigos da rua Augusta
a acenar aos homens sozinhos das prisões
e às rainhas dos mercados,
às gaivotas que voam sem estarem perdidas em cima do mar
ri-se durante horas
dos patos nos laguinhos dos jardins públicos.

Um dia pedir-lhe-ão que se entregue aos poros
com metáforas pendentes a chamá-lo de marinheiro,
a dizer que é preciso que afie as suas facas, sim
os seus dentes de mel terão de se agarrar ao pescoço dos vampiros,
e um dia
será uma barba a inspecionar o telhado de uma casinha de fósforos,
uma voz que se ajoelha face às varizes da mãe,
um nadador salvador de todas as promessas do passado.



Esse texto foi publicado no plástico bolha nº24: download PDF

 

 






 

 


 

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