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Jean-Paul Sartre: condenado à liberdade - Parte I
“o inferno são os outros”

Jardim de Luxemburgo, um pequeno apartamento de uma família de classe média. 1905, pouco tempo antes da Primeira Guerra Mundial. “O leitor entendeu que eu detesto minha infância e tudo aquilo que a me faz lembrar”. Em As Palavras, autobiografia publicada em 1964, Jean-Paul Sartre narra os doze primeiros anos de sua vida. Jean-Baptiste Sartre, seu pai, era um oficial da marinha que morreu quando seu filho tinha apenas quinze meses. Ainda criança, Jean-Paul se mostrava ávido leitor e escritor precoce. “Eu nasci da escrita: antes dela havia nada, a não ser um jogo de espelhos. Enquanto escritor eu existia...” Sartre tem duas grandes recordações de sua infância: o vínculo com sua mãe e a imersão em livros.

Criado por ela, Anne-Marie Schweitzer, os dois construíram uma relação de cumplicidade decisiva, que fundou a percepção de Sartre sobre as mulheres. Bon-vivant e sedutor, Sartre foi símbolo da revolução sexual do pós-guerra e preconizou a importância do feminino. Ele e Simone de Beauvoir, apelidada carinhosamente de “Castor”, se entrelaçaram até o fim da vida. Estão sepultados no mesmo jazigo. Ele, que faleceu em 1980, e ela, seis anos depois. Uma história de amor controversa, mas acima de tudo, filosófica. Jean-Paul não ficou apenas conhecido por sua obra teórica, mas também pelos efeitos práticos de seu pensamento. Desafiadores das normas culturais, os dois viveram — literalmente — a radicalidade do amor e do pensamento livre. Ela, ícone do feminismo, e ele, avesso a qualquer rótulo. Os dois, somas de suas ações, foram duramente criticados: não eram monogâmicos, tinham outros amantes e, muitas vezes, os “dividiam” — o caso mais famoso foi o conturbado triângulo amoroso que os dois sustentaram com Olga Kosakiewicz, aluna de Simone de Beauvoir. Costumavam dizer que a relação deles era a mais importante e todas as outras, meras contingências; mas não se pode afirmar que o efeito psíquico dessas empreitadas era saudável. Mesmo assim, insistiam em dizer que não havia ciúmes entre eles. Nas palavras de Beauvoir: “Tínhamos todas as vantagens de uma vida a dois, sem nenhum dos inconvenientes”. O casal virou mito.

Sartre foi educado pela sua mãe e instruído pelo avô, ele se desenvolveu em meio aos livros da biblioteca da família. Formou-se na École Normale Superieure, onde cultivou amizade com Paul Nizan e Raymon Aron. Quando Nizan casa, Sartre e Aron testemunham o ato e lamentam a decisão do amigo. Nenhum dos dois compreende o motivo de vincular o amor à instituição do casamento. Ao fim do ano de 1927, Sartre é reprovado no exame do concurso de agrégation em filosofia. Dizem que, por ele ter estilo próprio e linguagem original, acabou ultrapassando os limites estipulados pela tradicional da academia francesa. Teve que fazer a prova de novo e, desta vez, não só passou em primeiro lugar como também esta foi a ocasião em que conheceu Simone de Beauvoir, concorrente que conquistou a segunda colocação. Os dois viveram uma relação inspirada nas letras, em que procuravam transformar a vida em narrativa. Partilhavam tudo o que viviam e sentiam o duplo prazer de escrever suas próprias aventuras e ler as do outro.

Em 1939 Sartre se alistou no exército francês e serviu como meteorologista. No ano seguinte foi capturado pelas tropas alemãs e passou nove meses como prisioneiro de guerra. Foi nesse período em que Sartre escreveu sua primeira peça de teatro Barionà, fils Dutonnerre, e leu Ser e Tempo, de Heidegger. Após ser solto, em razão de estado de saúde frágil, passou a lecionar no Lycée Pasteur. De volta a Paris, funda o grupo Socialismo e Liberdade junto com Merleau-Ponty, Beauvoir, Jean-Toussaint e outros estudantes da École. Queriam a participação de André Gide e André Malraux, mas não conseguiram. Isso fez Sartre desistir do movimento para dedicar-se exclusivamente à escrita. Ficou grande amigo de Albert Camus, que era o dono de um jornal chamado Combat. Sartre contribuía ativamente para o periódico, mas tanto a amizade quanto a participação literária foram prejudicadas quando Camus abandonou o engajamento e deixou de ser comunista. Mas Sartre mantém sua posição até o fim sai e milita pela independência da Argélia, defende o maoísmo e participa, junto com Foucault e Deleuze, do movimento estudantil de maio de 1968, em Paris.

A Segunda Guerra Mundial deixa seqüelas que ultrapassam o âmbito político, pois um espírito de absurdo toma conta dos que viveram os dias de conflito. Pessimistas em relação à razão, usada friamente como máquina de guerra, vêem-se imersos em incongruências e despropósitos. Era preciso algo capaz de salvar a queda da experiência, a realidade despedaçada e a vista em estado de vertigem. O mundo era sinônimo de desastre, mas a percepção nauseante do não-sentido desdobrou-se em ato criativo. Erigiu-se, em meio aos cacos de natureza humana, um novo humanismo, fundado na liberdade pura e nas incongruências da existência. Sartre inaugura o período da literatura engajada e suscita tanto o entusiasmo quanto o ódio cego, pois sua luta pela autonomia era confundida com libertinagem. A essência de seu pensamento se enraizava no desejo de ser, em absoluto, o criador de sua própria imagem, para fugir de toda rigidez e fixação de sua existência gerada pelos olhares dos outros. “A luz do outro, as situações que escapam, a aparição do outro fazem surgir na situação um aspecto que eu jamais desejei e que me escapa por princípio, porque ela é ‘para o outro’”.

Mas Sartre ele mesmo cunha para si uma imagem mítica, e cada escolha que ele faz acaba sendo vista como exemplo. As regras de vida que ele autenticamente estabeleceu para si tornaram-se ditames comuns nas décadas de 60 e 70. A idéia de não se reconhecer em nenhum papel social, não acreditar no julgamento do outro, nas imagens de nós refletidas, no aprisionamento que o mundo pode gerar, foram as máximas de Sartre. E foi por pura coerência pessoal que ele recusou o Prêmio Nobel no ano de 1964, dando o último exemplo de emancipação, afirmando mais uma vez seu princípio de que “o que importa não é o que os outros fizeram de você, mas o que você faz com o que os outros fazem de você”.

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº24: download PDF

 

 






 

 


 

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