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Entrando na conversa sobre o fim da canção (4)


Dando continuidade ao debate sobre o “fim da canção”, abrimos espaço, neste número, para Francisco Bosco, escritor, letrista e ensaísta, além de doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Autor de diversos textos ensaísticos, publicou Da Amizade (Rio de Janeiro: 7Letras, 2003), Dorival Caymmi (São Paulo, Publifolha, 2006) e Banalogias (Rio de Janeiro, Objetiva, 2007).

Conhecedor como poucos do processo de composição de canções, filho de João Bosco e ele próprio letrista, Francisco Bosco faz os seguintes comentários sobre o tema proposto:


A canção: conhecendo, reconhecendo, desconhecendo
Francisco Bosco

Como todos sabem, Chico Buarque é um cancionista sofisticado. Emprega as palavras em suas arquiteturas melódico-textuais com grande consciência da lógica própria da canção. E como todos que não têm preconceitos fisiológico-culturais igualmente sabem, Chico Buarque é também um romancista rigoroso e consciente do fazer ficcional. Não se deve perder isso de vista quando se vai analisar suas investidas no discurso conceitual: também aí vigora uma postura de rigor.

Digo isso porque, ao aventar a hipótese de um acabamento da canção neste começo do século XXI, Chico Buarque determinou formal e historicamente a canção a que se referia – e, se ignorarmos essa determinação todo o problema perde o foco. Na fala de Chico Buarque, essa determinação, se manifesta em uma única construção — que se repete três vezes com mínimas alterações – sempre intercalada como se fosse um parêntese: “talvez a canção, tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20” (grifo meu).

Portanto, a canção em questão é a canção tal como a podemos reconhecer na tradição brasileira do século XX. Chico delimita com precisão seu arco histórico-formal: “Noel Rosa formatou essa música nos anos 30. Ela vigora até os anos 50 e aí vem a bossa nova, que remodela tudo — e pronto”. Para sermos drasticamente sucintos, a canção em questão tem dois traços fundamentais. O primeiro é antropológico-cultural: a canção “formatada” por Noel Rosa é basicamente o samba, um gênero sincrético, resultante de uma multiplicidade de cruzamentos sociais, musicais, semiológicos, tal como mostrou em detalhes Hermano Vianna em seu O mistério do samba. Essa multimiscigenação é um traço decisivo e distintivo da canção popular brasileira: como talvez nenhuma outra do mundo (à exceção daquela de língua inglesa), ela mistura oralidade e cultura escrita, consumo e vanguarda, síncope e música erudita. O segundo traço fundamental é de nível formal: desde Noel (desde antes), a canção para nós se confunde com melodia; e, mesmo que na bossa nova essa primazia da melodia cantada tenha sido submetida a uma ampla reconfiguração (em que a harmonia deu um salto experimental, a voz recuou de plano, a síncope foi sintetizada na batida do violão, etc.), ela nunca deixou de ser imprescindível. A MPB dos anos 60/70 e o tropicalismo, de maneiras muito diversas entre si, mantêm-se fiéis a essa tradição. A MPB segue o princípio da sofisticação bossa novista (diluindo-a às vezes, como soube apontar em tempo real Augusto de Campos), e o tropicalismo, abertamente filiado à antropofagia, radicaliza e sistematiza a mistura de códigos.

É a essa canção que Chico Buarque se refere, e daí que eu prefira usar o termo “acabamento” (em vez de “fim”), pois ele encerra as duas dimensões do problema: acabamento enquanto fim, e acabamento enquanto realização máxima. Essa canção, sem dúvida, chegou a seu acabamento: dentro de seus parâmetros, não há inovações decisivas na produção contemporânea.

Quando, entretanto, se pensa a canção fora dessas determinações histórico-formais, é mais do que evidente que a canção não acabou. Fora dessas determinações, a canção deve ser pensada em sua definição estrutural fundamental: canção é o pôr em relação de palavra e som, letra e música. Relação, por sua vez, não é mera coabitação, mas transformação recíproca, de modo a se criar uma experiência híbrida do sentido que é irredutível a qualquer um de seus elementos formadores (música e texto).

Ora, dessa perspectiva, o rap não é uma negação da canção, mas, apenas, como Chico Buarque falou, uma negação da canção “tal como a conhecemos”. O rap — idealmente falando — faz tabula rasa de harmonia e melodia, e desconhece a síncope. Ele é uma negação radical da canção popular brasileira tal como a conhecemos tanto do ponto de vista formal quanto cultural-ideológico. Ele nega a síncope, a harmonia, a tradição — e com isso nega a mestiçagem, a cordialidade, o encontro, isto é, mais ou menos tudo que a gente conhecia. Mas o rap é ritmo e poesia, isto é, a palavra transformada ritmicamente (ou o ritmo transformado verbalmente), o que significa dizer que é ainda uma linguagem sincrética, letra e música (ritmo é aí o elemento musical), que forma uma experiência nova e irredutível de sentido, numa palavra: canção. Nem vou entrar no mérito de que já faz tempo que, nos EUA, o rap se abriu à melodia e perdeu boa parte de seu teor político (antes sofreu uma lamentável regressão ideológica). O que importa aqui é assinalar que o rap não é nem mais nem menos canção do que qualquer outra canção. Sua pujança no Brasil e no mundo demonstra que não foi a canção que chegou ao seu acabamento, mas a canção tal como a conhecemos.




Esse texto foi publicado no plástico bolha nº24: download PDF

 

 






 

 


 

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