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As armadilhas reais e ficcionais de Carlos Sussekind

É certo que, no Rio de Janeiro da década de 50, havia uma família composta de pai e mãe, um filho e uma filha. O pai, corregedor de menores no Tribunal de Justiça, escrevia religiosamente duas vezes ao dia, em seu diário. Ao longo dos anos, mais de trinta mil páginas foram escritas. O conteúdo dos diários refere-se ao dia-a-dia da família, ao contexto político do país, aos problemas no trabalho, às doenças, etc. Especificamente em relação ao cotidiano da família, o diário do pai conseguiu a proeza de relatar uma vida absolutamente sem sobressaltos. Nas trinta mil páginas escritas, inscreveram-se os membros da família — em um retrato interno e externo de seus cotidianos. “Textualizados”, passaram a ter existência confirmada somente após serem inseridos no texto do diário. Os cadernos contendo a história da família sob a forma de diário íntimo estiveram sempre ao alcance das mãos dos inscritos e possíveis leitores ideais. Já foi dito que a natureza sigilosa da escrita diarística propicia a confidência. Segredos inconfessáveis e diálogos impossíveis de realizar no plano real encontram abrigo e concretização nas páginas de diários íntimos. Escritos de forma a dialogarem com o eu que escreve, os diários não previam a possibilidade de serem lidos. Bem, isto seria uma maneira convencional de abordar a escrita diarística. No entanto, nem sempre a regra é aplicada ao pé das Letras.

Carlos Sussekind de Mendonça, jurista, pai do escritor e tradutor Carlos Sussekind, escreveu as trinta mil páginas do diário real. O filho leu e se fascinou com a sua existência e com a existência narrativizada de sua família. O fascínio transformou-se em obsessão e, logo, existência real e existência textualizada passaram a se confundir. Em um momento de sua vida de adolescente, ainda sob os cuidados dos pais, Carlos Sussekind surta e é enviado para um sanatório, para cumprir um período de reabilitação e busca de equilíbrio. Em outro momento, Carlos Sussekind publica seu segundo romance, Armadilha para Lamartine, no qual reescreve, ficcionalizando, sua experiência no sanatório e seu envolvimento obsessivo com o diário do pai. Em entrevistas, admite ter-se apropriado de textos do diário do pai para a elaboração do romance. Tanto que a autoria do romance é atribuída ao filho e ao pai (este já falecido à época da publicação): Carlos & Carlos Sussekind.

Em Armadilha para Lamartine, há dois tipos de narrativa. A primeira, o “Diário da Varandola-Gabinete”, diário de Espártaco M., pai de Lamartine; a segunda, “Duas mensagens do pavilhão dos tranqüilos”, escritas por Lamartine “fazendo-se passar por um outro doente (Ricardinho)” (Sussekind, 1998: 7), também interno do Sanatório Três Cruzes, para onde Lamartine é enviado após ter um surto psicótico. As duas seções do romance são introduzidas por um texto curto, objetivo e explicativo que as apresenta nessa mesma ordem. O texto não leva uma assinatura, podendo, assim, ser considerado um paratexto introdutório do texto ficcional. Ao virar a página, o leitor se depara com o primeiro índice da não confiabilidade do organizador do material narrativo: a ordem das partes é invertida sem nenhum aviso.

A natureza de relato surrealista de “Duas mensagens do pavilhão dos tranqüilos” expõe de forma não muito sutil a realidade das instituições mentais; suas práticas de cura que se assemelham às práticas de tortura que, na época da publicação do romance, serviam para “curar” desvios ideológicos. O período retratado no texto do “Diário da Varandola-Gabinete” compreende os meses que precederam o surto psicótico de Lamartine, sua internação e, finalmente, sua volta a casa. Curiosamente, tanto no texto introdutório quanto em “Duas mensagens do pavilhão dos tranqüilos” há uma menção ao fato de que o conteúdo do diário de Espártaco M. seja relatado por Lamartine, aos outros internos do sanatório. Através de uma suposta leitura telepática, Lamartine é capaz de narrar aos colegas de confinamento um relato de uma vida “sã”, do lado de fora da instituição mental.

Com exceção do texto introdutório, as narrativas das duas seções do romance são efetuadas por um narrador em primeira pessoa. A aparente organização do material narrativo esconde um jogo de cisões entre aquilo que é revelado e aquilo que é omitido. As perspectivas narrativas são dissimuladas, o que configura a sugestão de uma armadilha, como consta no título do romance, tanto para o leitor quanto para os personagens envolvidos com os relatos do mundo narrado.

Em 1994, Carlos Sussekind publica seu terceiro romance Que pensam vocês que ele fez, no qual retoma sua obsessão pelos diários do pai e recupera os personagens de Armadilha para Lamartine. O tempo retratado no terceiro romance, em vez de continuar uma ordem cronológica, retrocede à infância de Lamartine. As escolhas de estratégias narrativas também diferem do romance anterior. Em Que pensam vocês que ele fez, as vozes narrativas se multiplicam e, apontando para uma polifonia (ou seria uma cacofonia?) pós-moderna, denunciam a natureza fragmentária tanto do status ontológico dos personagens quanto da estrutura narrativa em si mesma. O diário de Espártaco M. está presente sob a forma de um escrito apócrifo, no qual tudo o que era supostamente omitido passa a ser assunto preferencial. A normalidade da vida em família, as insignificâncias do enredo do “Diário da Varandola-Gabinete” surgem aqui como um caixa dois, um livro que relata as obsessões, as perversões e a infidelidade de Espártaco M.

Assim como em Armadilha para Lamartine, a voz extradiegética contida no texto introdutório está presente. A princípio, de forma anônima, através de um aviso ao leitor. Ao logo da narrativa, essa voz se personifica na figura do professor Guaraná, que é o responsável pela leitura e edição do romance e também autor do texto da orelha. Como o professor mesmo explica, ele, de personagem passa a colaborador do processo de escrita do romance.

A ausência de voz daquilo que se convencionou chamar de autor implícito provoca o desejo de localizar, na obra de Carlos Sussekind, uma instância que se interpõe entre o que seria o autor implícito e os seus narradores estabelecidos. Apesar de ter voz, esta funciona somente como um organizador, um controlador das outras vozes narrativas. A figura do narrador tem sido constantemente — de forma acidental ou proposital — confundida com a pessoa do escritor. A condição ontológica de um e a natureza abstrata do outro sugerem que o motivo da confusão não está necessariamente na compreensão lógica de que “alguém escreveu o texto que está sendo lido”, mas nas marcas culturais e estilísticas contidas no texto e sua projeção involuntária ao nome constante na capa, ao qual é atribuída a autoria.

As fronteiras que separam o mundo real do mundo narrado têm sido, cada vez mais, transpostas e enfraquecidas. Uma evidência disso é, sem dúvida, o cruzamento entre ficção e realidade, entre texto literário e texto memorialístico existente nos dois romances de Carlos Sussekind.

Carlos Sussekind é autor também de Ombros Altos (Edição do autor, 1960 e 7 Letras, 2003) e O autor mente muito, em parceria com Francisco Daudt da Veiga (Dantes Editora, 2001).

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº23: download PDF

 

 

 






 

 


 

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