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NOS BRAÇOS DE CALIPSO


Maré (2008), o mais novo cd de Adriana Calcanhotto, integra, segundo a compositora, uma trilogia dedicada ao mar, inaugurada com Maritmo (1998). Maré e Maritmo guardam uma simetria não só pelas duas canções que intitulam ambos os cds, mas por duas composições de Caymmi, o nosso Nereu, aquele que conhece tudo de mar e de música: “Sargaço Mar” (1975) e Quem vem pra beira do mar (1954). À exceção de quatro canções, todas as outras fazem referências implícitas ou explícitas ao mar. Na deliciosa canção Porto Alegre (Nos Braços de Calipso), Péricles Cavalcante brinca com duas aventuras de Odisseu: as Sereias e Calipso, desconstruindo o relato homérico.  

As Sereias, filhas do rio Aquelôo e de Melpômene, uma das nove Musas, ou Estérope, são seres híbridos, i.e., quer mulheres-pássaro, quer mulheres-peixe, devido à punição de Deméter, por elas não terem feito nada para evitar o rapto de sua filha Core ou à punição de Afrodite, segundo uma variante, por elas se recusarem aos prazeres do amor. A iconografia dos vasos gregos em relação a Odisseu faz referência à primeira tradição. Antes de deixar a ilha de Eéia, Circe alertara Odisseu sobre as Sereias que “seduzem com seu canto melodioso ligyrêi thlégousin aoidôi” (Od., XII, 44) os homens para depois matá-los. A maga obstou aos nautas o canto, porém ofereceu a Odisseu a possibilidade de ouvi-lo, se quisesse. Ao passar pelas Sereias, Odisseu tapa o ouvido da marinhagem com cera, e os nautas amarram-no ao mastro, conseguindo, então, passar incólume ao canto. Já na Argonáutica, Apolônio de Rodes (V.a.C.) relata que as Sereias, mulheres-pássaro, hedeíeisin thélgousai molpêisin (Arg., IV, 893-894) “seduzindo com o seu canto agradável, destruíam quem quer que lançasse as amarras do navio”  Orfeu, no entanto, participava da tripulação e

“tomando em suas próprias mãos a phórmiks* da Trácia

prontamente fez ressoar a melodia de uma canção ligeira

de modo que seus ouvidos fossem preenchidos

pelo som do instrumento; a phórminks sobrepujou a voz das jovens”.

(Arg., IV, 906-909)


Os nautas sequer sentiram-se atraídos pelo canto das Sereias, exceto Butes, que se lançou ao mar, porém foi salvo por Afrodite. A melodia dedilhada por Orfeu é capaz de neutralizar o canto das Sereias. O verbo thélgein, empregado para descrever-lhes o canto em Homero e Apolônio de Rodes, contém uma ambivalência; significa tanto fascinar, seduzir alguém por meio de encantamentos mágicos, quanto enganar, induzir ao erro. Emprega-se sobretudo em relação à magia e ao poder encantatório das palavras e da música. Por promoverem a morte e o esquecimento, o que é incompatível com o discurso épico, uma vez que esse visa celebrar a memória imorredoura dos heróis, as Sereias funcionariam assim como Anti-Musas e relacionar-se-iam com um feminino destrutivo e pervertido.

Deixando à ilha Trinácria, a única nau de Odisseu que sobrevivera a todas aventuras foi atingida pelo raio de Zeus e os nautas pereceram afogados. O herói tem de passar agora por Caribdes, uma jovem de voracidade insaciável, que roubou algumas reses de Héracles, quando este conduzia os bois de Gerião. Zeus puniu-a, lançando-a ao mar e metamorfoseando-a em monstro. Odisseu agarra-se ao tronco de uma figueira enquanto o monstro encontra-se em fase de ingestão; quando em fase de vômito, lança-se à quilha e ao mastro, salvando-se então. O herói sem mais recursos vaga náufrago por nove dias e, no décimo, avista Ogígia. A ilha é habitada por Calipso, a que esconde, (< kalýptein, cobrir, esconder), uma ninfa que vive sozinha e se alimenta de néctar e ambrosia. No tempo da narrativa, Odisseu passa sete anos contínuos em sua companhia, a mais longa de todas as aventuras; no oitavo parte, mas simbolicamente está fora do tempo, na eternidade, e do espaço, em atopia. Inclusive a ninfa pretende mudar-lhe o status ontológico, transformá-lo em divindade. Odisseu recusa a imortalidade, pois ser deus significa esquecer seu nóstos, o retorno, seu oîkos, Ítaca, e seu génos, Penélope e Telêmaco, optando, portanto, pela condição humana.  

Odisseu, através da forma latina Vlixes, -is donde Ulisses, é um personagem cuja principal característica talvez seja sua longevidade na história da literatura ocidental, como revela a canção Porto Alegre (Nos Braços de Calipso). Péricles Cavalcante concebe um Odisseu em primeira pessoa, que opta por não ouvir o canto das Sereias, segunda possibilidade oferecida por Circe, e que, em Ogígia, não resiste aos encantos de Calipso nem ao ritmo calipso, um divertido anacronismo. O compositor aponta para uma nova escolha de Odisseu, ou seja, não mais retornar a Ítaca. A sua “odisséia” talvez se concluísse ali, em companhia de Calipso. Desconstruindo assim uma de suas grandes façanhas, ter ouvido o canto das Sereias, e sinalizando para uma nova faceta de Odisseu, Péricles Cavalcante reelabora e reescreve um mito literário. A faixa conta ainda com o auxílio luxuoso de Marisa Monte entoando líquidas melodias. Adriana Calcanhotto apresentou o show Maré, apenas em um final de semana de junho, no Rio de Janeiro. Ficamos todos aguardando sua volta.

*A phórmiks é o instrumento de corda grego mais primitivo.

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº23: download PDF

 

 






 

 


 

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