A incerteza da noite
Quando soube do enterro de Carla, começava a desenrolar a estampa com o desenho de mulher, que guardo desde a infância. Vieram com a notícia: “Carla morreu, o enterro é agora etc.” Não terminei de desenrolar a estampa, com a gravura sem olhos parada numa janela. Usava um vestido de noiva e riria de mim.
Pensei que Carla não estivesse sozinha, isso me consolou um pouco. Ela devia dormir sobre grande cama de casal, as mãos cruzadas sobre o vestido de renda. O rosto já esverdeava, e, do lado de fora da casa em que vivera — postados diante da janela —, uns homens tão comuns quanto eu, tão iguais na dor, estariam olhando para Carla dormindo, descansando como mulher justa. Esses homens souberam, como eu, descansar muitas vezes ao lado de Carla, e, naquela hora, esperavam descansar uma vez mais ao seu lado, homens pálidos como círios, luz forte a protegê-la.
Já era noite. Enrolei novamente a gravura da mulher sem olhos; guardei-a embaixo do colchão. Depois me levantei, olhei uma vez mais o espelho e não me vi. No espelho cabia o quarto todo, só não vi a cadeira em que costumava sentar todas as noites quando não conseguia dormir.
Na rua, mulheres ofereciam os corpos aos clientes, símios providos de focinhos descarnados e gotejando. Eram baixos e de pernas roliças como pescoços de gansos engordados. Depois seriam castrados e servidos. Uma velha gorda, que andava sobre uma perna de osso de baleia, me excitou muito. Então pensei que ela poderia ter me oferecido sua órbita vazia, com doçura. Minhas pernas apressaram-se quentes e fugi logo dali.
Que enorme chaminé cortava o céu! A coluna de tijolos exalava dos fornos subterrâneos a fumaça azulada. Nuvens se encharcavam de hulha. Havia no alpendre da casa uma latada de loendros.
O cheiro das flores me atraiu para as três figuras postadas na janela, três homens de terno e chapéus. Eles esmagavam com os pés os loendros. Ao me aproximar, as três formas se abriram, acolheram-me numa expectativa macia e quente, como a branca umidade de um lençol.
Todas rodeavam Carla, as mulheres com espartilhos vermelhos, bocas rasgadas na carne empoada, algumas fumando cigarrilhas. Uma jovem cujos ossos despontavam da pele leve como plástico, de dentes verdes e olhos verdes, estava sentada na borda da cama de casal e apoiava a mãos sobre as mãos cruzadas de Carla. Eu e os homens já havíamos nos divertido com todas aquelas figuras de bricabraque; nossos corpos é que exalavam o perfume dos loendros, e não elas, ainda menos Carla, pois nessa noite elas eram os lírios, e toda a noite regurgitava um som de animais lúbricos, porque fora daquele quarto a noite se retesava. Éramos nós, eu e os homens, que vínhamos perturbar o sono de Carla. E a menina de dentes verdes encostou as bochechas nas mãos cruzadas de Carla e começou a guinchar pequenininho.
O que seus olhos viam por trás das pálpebras? Carla fora a mais justa de todas as mulheres, para nós, homens silenciosos, homens retos, cordatos, cordiais, de corações encaixados num copo, nos nossos peitos construídos desde que nascemos por um fazedor de gaiolas, ela, Carla, a mais gentil das mulheres, nos recebera sempre em seu quarto com as pálpebras fechadas, mas as mãos abertas como o vôo prestes da pomba, sim, agora na noite que castrava a todos como uma orquídea, só então é que deveriam ter aberto suas pálpebras. Ela nos recebia em seu quarto, ela me recebeu, a menina para quem contávamos que em seu peito soava uma máquina de bóreas, para nos refrescar. Deveriam ser totalmente brancos, seus olhos, iguais aos da freira que andou um tempo por aqui, caminhando com a bengala, as órbitas brancas que me seguiam quando eu ia dormir. E ela sentava num banco em frente à minha casa e ficava me vendo de sua silenciosa brancura. Alisava a bengala e urinava.
Carla possuía uma bengala e ninguém podia acreditar que ela vivesse como vivia, que se vestia de vermelho e que suas mãos eram da cor do regato quando é estação de lírios. Ela sabia doar alegria aos homens cansados, homens de chapéus e ternos negros. Ela andava como se o chão não a tocasse, e ajudavam-na a atravessar a rua. Sorriam tristes para ela; havia o menino que pensava quando crescer casar com Carla. Mas era ainda um menino muito novinho para saber que não é bom casar com uma cega. Ainda mais se soubesse das coisas que fazia Carla, de como ela se vestia e como era “boa” para os homens. Para todos, Carla era o “anjo no céu”, era para ser cuidada, com seu pequeno cabelo louro e seus olhos que viviam da noite.
Tiraram seu corpo da cama, colocaram no caixão e tamparam-no. Só cabia a nós, quatro homens postados, cada uma das alças. Não havia peso ali, era como se segurássemos o vento, as mulheres nos acompanharam e sabíamos que, por trás das janelas dos prédios, lojas e casas, todos dormiam, ninguém gostaria de espionar a noite, todos os cegos do lugar eram enterrados sozinhos, como numa reunião muda entre leprosos, sentindo o peso de suas línguas dentro de frascos de vidro banhados por tochas.
Quatro homens de cera acendiam a sagração da noite.
E no cimo do lugar, um pouco afastado do cemitério, cavamos um buraco, colocamos Carla dentro dele, como se guarda uma estampa que não queremos ver, e cada um de nós, homens e mulheres, a cobriu com um pouco de terra. A menina de dentes verdes apoiava o ombro no peito de uma mulher gorda, com uma espécie de bigode.
Depois todas desceram em fila o morro, dava para ver os espartilhos vermelhos andando sozinhos, sem substância.
Havíamos trazido o jogo de cartas. Sentamos em torno de Carla, acendemos nossos cigarros, começamos a jogar. Da chaminé da fábrica mais um gole de fumaça azul ajoelhou-se na noite.