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Carolina Maria de Jesus


1 de junho é o início do mês. É o ano que deslisa. E a gente vendo os amigos morrer e outros nascer. (...) É treis e meia da manhã. Não posso durmir. Chegou o tal Vitor, o homem mais feio da favela. O representante do bicho papão. Tão feio, e tem duas mulheres. Ambas vivem juntas no mesmo barraco. Quando êle veio residir na favela veio demonstrando valentia. Dizia:

— Eu fui vacinado com o sangue do Lampeão!

Dia 1 de janeiro de 1958 êle disse-me que ia quebrar-me a cara. Mas eu lhe ensinei que a é a e b é b. Êle é de ferro e eu sou de aço. Não tenho força física, mas as minhas palavras ferem mais do que espada. E as feridas são incicatrisaveis. Êle deixou de aborrecer-me porque eu chamei a radio patrulha para êle, e êle ficou 4 horas detido. Quando êle saiu andou dizendo que ia matar-me. Então o Adalberto disse-lhe:

— É o pior negocio que você vai fazer. Porque se você não matá-la ela é quem te mata. Eu tenho uma habilidade que não vou relatar aqui, porque isto há de defender-me. Quem vive na favela deve procurar isolar-se, viver só. O Vitor está tocando radio. Penso: hoje é domingo e nós podíamos dormir até as 8. Mas aqui não há consideração mutua.

Eu nada tenho que dizer da minha saudosa mãe. Ela era muito boa. Queria que eu estudasse para professora. Foi as contingências da vida que lhe impossibilitou de concretizar o seu sonho. Mas ela formou o meu caráter, ensinando-me a gostar dos humildes e fracos. É porisso que eu tenho dó dos favelados. Se bem que aqui tem pessoas dignas de desprêso, pessoas de espírito perverso. Esta noite a Dona Amélia e o seu companheiro brigaram. Ela disse-lhe que êle está com ela por causa do dinheiro que ela lhe dá. Só se ouvia a voz de Dona Amélia que demonstrava prazer na polemica. Ela teve vários filhos. Distribuio todos. Tem dois filhos moços que ela não os quer em casa. Pretere os filhos e prefere os homens.

O homem entra pela porta. O filho é raiz do coração.

É quatro horas. Eu já fiz o almôço — hoje foi almôço. Tinha arroz, feijão e repolho e lingüiça. Quando eu faço quatro pratos penso que sou alguem. Quando vejo meus filhos comendo arroz e feijão, o alimento que não está ao alcance do favelado, fico sorrindo atôa. Como se eu estivesse assistindo um espetaculo deslumbrante. Lavei as roupas e o barracão. Agora vou ler e escrever. Vejo os jovens jogando bola. E êles correm pelo campo demonstrando energia. Penso: se êles tomassem leite puro e comessem carne...

2 de junho Amanheceu fazendo frio. Acendi o fogo e mandei o João ir comprar pão e café. O pão, o Chico do Mercadinho cortou um pedaço.
Eu chinguei o Chico de ordinário, cachorro, eu queria ser um raio para cortar-lhe em mil pedaços. O pão não deu e os meninos não levaram lanche.

...De manhã eu estou sempre nervosa. Com medo de não arranjar dinheiro para comprar o que comer. Mas hoje é segunda-feira e tem muito papel na rua. (...) O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. Mas eu não quero porque já estou na maturidade. E depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para escrever. E que deita com lápis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal. Êle deu-me 50 cruzeiros e eu paguei a costureira. Um vestido que fez para a Vera. A Dona Alice veiu queixar-se que o senhor Alexandre estava lhe insultando por causa de 65 cruzeiros. Pensei: ah! O dinheiro! Que faz morte, que faz odio criar raiz.

Trechos do diário da moradora da favela do Canindé, São Paulo, catadora de lixo e mãe de três filhos.

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº22: download PDF

 

 






 

 


 

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