ARTAUD, SILVIANO E AS ÂNCORAS
Antonin Artaud está a bordo do S. S. Albertville no porto de Antuérpia. É dia 10 de janeiro de 1936. Ele deixara Paris de trem no dia anterior, numa manhã recoberta de nuvens cinzentas, baixas e pesadas. Caía uma garoa fina e incômoda que, de vez em quando, era chicoteada por rajadas de vento, e Artaud sentiu prazer ao olhar para a mala nova de papelão na cor marrom-escuro e pensar que estava partindo. Ele não suportava umidade.
Agora, Artaud está deitado, sonolento, no beliche da cabine de segunda classe, que divide com três companheiros no navio que o levará ao México. De repente, ele tem um sobressalto e pula da cama. A trepidação causada pelo movimento das hélices indica que a viagem começava de fato naquele momento. O navio se afasta do cais. A trepidação aumenta. Artaud sente uma zonzeira que ainda não sabe se é boa ou ruim, mas tem certeza de que não há mais terra firme sob seus pés. “Navio e passageiro perderam as âncoras”, afirma Silviano Santiago em Viagem ao México, no qual evoca a ida do dramaturgo francês à América, em 1936. Foi neste ano que ele nasceu numa cidade do interior de Minas Gerais, em fins de setembro — e isto é tratado no livro, não na perspectiva simplista de coincidência, mas como uma permissão que os astros deram para Silviano criar seu personagem e fabular um encontro com ele.
Não sei se a viagem de Artaud se deu exatamente como está narrada em Viagem ao México. De qualquer forma, isso pouco importa, não vou me dar o trabalho de checar fatos nas biografias tradicionais do escritor francês. Os dados desse livro, dos quais me apropriei à minha maneira, me servem.
Silviano Santiago enfatiza o sentido utópico da viagem de Artaud, que queria resgatar o passado mítico da civilização asteca, mas se decepciona diante de uma intelectualidade que inveja o racionalismo da cultura européia. Na verdade, o livro de Silviano é uma espécie de preâmbulo de Viagem ao país dos taraumaras, no qual Artaud narra sua viagem ao México, que começou efetivamente depois de ele deixar a capital e rumar para a região dos índios taraumaras, onde experimentou o peiote.
Não vou seguir para a região dos taraumaras, pelo menos não agora. Escolho estar, neste momento, na Universidade do México na companhia de Artaud. Interessam-me as Mensagens revolucionárias. Numa de suas palestras, ele afirmou: “Eu vim para o México fugido da civilização européia, produto de sete ou oito séculos de cultura burguesa, movido pelo ódio contra essa civilização e essa cultura. Esperava encontrar aqui uma forma vital de cultura e só encontrei o cadáver da cultura da Europa, do qual a própria Europa já começa a se desembaraçar”.
Muito antes disso, em 1925, Artaud escrevera a “Carta aos reitores das universidades européias”: “(...) A Europa cristaliza-se, mumifica-se lentamente sob as ataduras das suas fronteiras, das suas fábricas, dos seus tribunais, das suas universidades. (...) a culpa é vossa, reitores presos no laço dos silogismos. Os senhores. fabricam engenheiros, magistrados, médicos, aos quais escapam os verdadeiros mistérios do corpo, as leis cósmicas do ser, falsos sábios, cegos para o além-terra, filósofos com a pretensão de reconstituir o espírito(...)”.
É significativo que durante o Maio de 68 na França, este texto tenha servido como panfleto revolucionário e sido afixado na Sorbonne. Falo disto aqui porque neste 2008 se comemoram não só os quarenta anos do movimento francês, mas das manifestações ocorridas em diversos países durante 1968 — um ano-constelação. Se, por um lado, esses eventos não provocaram transformações radicais no cenário político mundial, por outro marcaram profundamente o comportamento e os valores sociais e culturais. A partir de 1968, houve mudanças fundamentais na maneira de enxergar e pensar o mundo. E não há dúvida de que temas levantados há quarenta anos – aliás, mais que isso, em 1925 e 1936, por Artaud — ainda colocam em xeque a sociedade contemporânea.
Sim, isto é um convite (não uma carta). Um convite para uma viagem a bordo do S. S. Albertville, na qual certamente navio e passageiros perderão suas âncoras.