Entrando na conversa sobre o fim da canção (2)
No artigo anterior, eu havia argumentado que a canção tropicalista não é mais o artefato completo, totalmente contido na unidade música-letra, que fora a canção bossa-nova, pois ela só se completa com elementos externos — arranjo, interpretação, até mesmo capa de disco. Retomo, neste número, o tema da desconstrução da canção pelos músicos tropicalistas a partir de um outro viés, referente ao uso de procedimentos intertextuais. Citam-se, além de composições que fazem parte do cancioneiro nacional e estrangeiro, os mais diferentes elementos de tradições culturais também distintas, provenientes tanto do universo pop, como também da “alta cultura”. As citações aparecem na própria forma de estruturar a canção, nos arranjos inusitados de Rogério Duprat para o LP Tropicália (1968) e até mesmo nas performances do grupo.
As canções-citações se criam a partir de músicas já consagradas pela tradição do nosso cancioneiro. Tomo como paradigmática do gênero “Paisagem útil”, de Caetano Veloso (LP Caetano Veloso, 1968), que me dedico a analisar nesta coluna. O título inverte o sentido de “Inútil paisagem”, composição de Tom Jobim e Aloísio de Oliveira, de 1964. “Inútil paisagem” é prenhe de subjetividade, dando voz a um sujeito lírico que se sente só. Vejamos a letra:
Mas pra quê
Pra que tanto céu
Pra que tanto mar,
Pra quê?
De que serve esta onda que quebra
E o vento da tarde
De que serve a tarde
Inútil paisagem?
Pode ser
Que não venhas mais
Que não voltes nunca mais
De que servem as flores que nascem
Pelo caminho
Se o meu caminho
Sozinho é nada
É nada
É nada
A inversão completa, entretanto, dá-se apenas no título, pois “Paisagem útil”, de maneira inusitada, reúne os espíritos solar e noir, alternando poética e musicalmente a melancolia presente em “Inútil paisagem” com a celebração do cotidiano. A canção se inicia com a plena positividade da estrofe
Olhos abertos em vento
Sobre o espaço do aterro
Sobre o espaço sobre o mar
“Paisagem útil” surpreende o ouvinte habituado com a tradição poética construtivista ao lidar com temas concretos — objetos e informações que povoam o espaço modernizado do Aterro do Flamengo, como os automóveis “que parecem voar” e a “lua oval da Esso” — de maneira introspectiva, fazendo jus, dessa maneira, à concepção de “Inútil paisagem”. Mas, se a interioridade de “Inútil paisagem” é cantada a partir do estilo musical da bossa nova, com instrumentação e interpretação pequena, “Paisagem útil” é uma marcha-rancho que recorre a um arranjo exuberante com cordas e metais.
Num certo ponto do desenvolvimento da música, natureza e cultura do Aterro são contempladas —
O céu vai longe do Outeiro
O céu vai longe da Glória
O céu vai longe suspenso
Em luzes de luas mortas
Luzes de uma nova aurora
Que mantém a grama nova
E o dia sempre nascendo
— para em seguida comentar o cenário urbano povoado de transeuntes com um destino certo — “Quem vai ao cinema/ quem vai ao teatro/ Quem vai ao trabalho/ quem vai descansar” —, de artistas — “Quem canta/ quem canta/ Quem pensa na vida” — e flanêurs — “Quem olha a avenida/ quem espera voltar”. Neste trecho, Caetano alude a Chico Buarque, não apenas por lhe imitar o modo de cantar, mas também pela sucessão de versos iniciados por “quem”, os quais trazem à lembrança várias passagens de canções de Chico: “Quem canta comigo/ canta o meu refrão” (“Meu refrão”), “Estou vendendo um realejo/ Quem vai levar? / Quem vai levar?” (“Realejo”) e, é claro, “Quem te viu, quem te vê”.
Logo depois, também de maneira inesperada, no intervalo que prepara o próximo tema, ouvem-se acordes de bossa-nova que introduzem a passagem poética “Os automóveis parecem voar”. A marcha-rancho é retomada em seqüência e, como que preparando a introdução do tema lunar, Caetano começa a cantar como um intérprete de boleros, soltando a voz e pronunciando os erres à maneira de Nelson Gonçalves, na seguinte passagem:
Mas já se acende e flutua
No alto do céu uma lua
Oval, vermelha e azul
No alto do céu do Rio
O tom intimista retorna com a estrofe final, que substitui, entretanto, o espírito cool e sofisticado de “Inútil paisagem” por um registro kitsch, porém triste, lembrando um circo retratado por Fellini:
Uma lua oval da Esso
Comove e ilumina o beijo
Dos pobres tristes felizes
Corações amantes do nosso Brasil