Por isso, a cada manhã,
os olhos da cidade abrem-se nas janelas
para receber o sol,
as moças acordam e perfumam os seios,
flutuam nas salas,
deslizam nas calçadas,
os gatos conversam com os fantasmas das casas,
as empregadas limpam os vestígios do dia,
os homens calculam a geometria dos gestos,
os carros costuram a urdidura das ruas,
enquanto eu, aqui neste quarto,
evoco a voz da tia-avó pontuando o mistério:
o que tem de ser tem muita força...
Por isso o sangue pulsa, a fruta cresce, o corpo busca.
Por isso envelhecemos.
Por isso os peixes sabem a fundo
aquilo que não sabemos,
e os prédios sobem
e os ventos mudam,
e os pássaros – ah, os pássaros – os pássaros cantam
para toda a luz que dança por cima das águas:
para os amantes, os loucos, as crianças,
enquanto tia Zezé se balança na cadeira de palha,
sussurrando aos ouvidos da minha infância:
o que tem de ser tem muita força.