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Agostinho de Hipona, o santo boêmio

 

É... nunca imaginei que escreveria um texto sobre Santo Agostinho fora das aulas de religião. Bem, sendo ainda mais sincera, nunca imaginei que eu fosse querer escrever uma linha sequer sobre ele, que foi motivo de pesadelo e revolta durante os duros anos de meu ensino básico. Não sou católica — apesar de primeira comunhão e batismo — e jamais gostei de me confessar — menos ainda de rezar o terço. Também, pudera! Os padres me davam medo. Eu não entendia por que, depois de confessar meus pecados infantis — daqueles que toda criança saudável comete —, eu tinha que rezar não-sei-quantas Ave-Marias e não-sei-quantos Pai-Nossos. É claro que eu nunca terminava. Rezava um de cada e olhe lá. Acho que só me confessei duas vezes na vida. Parei de ir à igreja tanto por falta de paciência quanto por perceber que aquilo ali não era um remédio contra minhas mentiras. Deveria haver um outro caminho.

O tempo passou e, aos 16 anos, li O Anti-Cristo, de Nietzsche. Foi uma revelação. Passei a mentir muito mais, acreditando na potência do falso e na incapacidade dos outros de receber a facada da afiada lâmina da verdade. Eu detestava Santo Agostinho e todos os seus amigos santos. Mas quanto mais eu queria distância, mais a presença desses elementos cristãos se destacava. Resolvi, enfim, encarar a tarefa de estudá-los, entendê-los e absorvê-los ao meu modo. Ofereço-lhes, portanto, alguns pedaços de minhas... quer dizer, das confissões de Santo Agostinho.

Uma das coisas mais interessantes que descobri na biografia de Aurélio Agostinho foi que ele era africano. Tudo bem, eu sabia que o local de nascimento chamava-se Tagaste, mas para daí juntar A com B e perceber que ele era africano e que poderia, por isso, ter sido negro de cabelo black-power, só com a ajuda de Rosselini (aliás, vejam o filme Agostini di Hipona – faz dormir, mas vale pelo exercício de desconstrução das imagens que formamos sobre a época e sobre os homens da Igreja). Esses e outros casos me fizeram imaginar o santo como uma pessoa muito mais interessante do que aquela rígida figura pintada pelos freis do colégio onde estudei, lá no Leblon.

Nascido no século IV, no dia 13 de novembro de 354, Aurélio teve, na juventude, um grupo de amigos com os quais gostava de andar pelas ruas fazendo escárnios, zombando dos outros e roubando frutas de plantações particulares. Quando conta sobre seu passado, ele se mostra indignado com as represálias que recebia: “o que nós gostávamos de fazer era brincar e éramos castigados por isso, e por pessoas que se comportavam do mesmo modo que nós. Mas a diversão dos homens mais velhos é chamada de ‘trabalho’, enquanto que as crianças, quando realizando sua própria diversão, são punidas por ela”. O livro Confissões narra o processo pelo qual passou até compreender suas próprias frustrações, inquietações e irritações e transformá-las em meras expressões de sua natureza humana, por ter desenvolvido um senso de equilíbrio, contentamento e estabilidade. Na adolescência teve relações com diversas mulheres, até que se estabilizou e permaneceu durante 16 anos com a mãe de seu filho, Deodato. Mas, pelo fato de ela ser de classe mais baixa, o relacionamento foi interrompido. Agostinho aceitara uma oferta de casamento arranjado que, teoricamente, lhe traria grandes benefícios. Mas não deu certo e em pouco tempo se separou e abandonou a carreira de professor universitário, alegando problemas de saúde. Logo após foi batizado pelo Bispo Ambrósio de Milão e se recolheu para escrever seus trabalhos.

Na verdade, por meio de Confissões, Agostinho conseguiu se libertar de suas compulsões luxuriosas. Viciado em sexo e nos prazeres da carne, ele não conseguia mais gozar nas práticas das quais se tornou escravo. Ele diz: “um escravo não pode desfrutar daquilo que o escraviza”. Para se desprender, Agostinho trilhou um caminho a que, muitos séculos depois, Barthes também se entregou: “Mas, e se o conhecimento for, ele mesmo, delicioso?” Ambos concordam que um texto que dá prazer não fala necessariamente de sexo. O prazer que Agostinho passa a encontrar nos estudos, na escrita e na leitura é mais duradouro do que uma garrafa de vinho e uma noite com boas comidas e belas mulheres. Agostinho não nega a alegria advinda dessas práticas. Ao contrário, define o pecado como uma busca compulsiva de objetos que são bons em si mesmos, mas que, por outro lado, são incapazes de, sozinhos, satisfazer tanto a infinitude dos desejos quanto o desejo de infinito. Neste percurso, diz ele ter encontrado um objeto que o estimula provocando uma sinestesia quase física, que movimenta o sangue e os sentidos: Deus, o maior dos conceitos abstratos. Interessante é que ele passa a valorizar sentidos menos óbvios, mais sutis, como os “olhos da mente” e os “ouvidos do coração”.

Nesse tempo de ascetismo voluntário, volta para África e colhe maior inspiração para sua redação. Tão logo retorna, sua mãe morre e, um pouco depois, ele perde o filho. Passa os anos seguintes imerso em tarefas da Igreja, onde cria relações que o fortalecem depois das perdas. Foi ordenado padre; tornou-se bispo em 395. Foi santificado em 430. Agostinho de Hipona ou Santo Agostinho foi bispo da Igreja Católica e terminou a vida como um santificado doutor. Foi responsável por misturar o platonismo à doutrina católica, espalhando na imaginação dos fiéis as idéias puras de “céu” e “inferno”. Sua filosofia se mostrou um denominador comum entre os pensamentos dos epicuristas, estóicos, céticos e de neoplatonistas como Plotino e Porfírio, além de diferentes correntes da ortodoxia cristã – como os maniqueus, por exemplo. Mas o que muitas vezes passa ao largo da leitura das Confissões é a sedução causada pelo uso da primeira pessoa. Sedução por vezes demagógica, que inebria o leitor com seus silêncios, suspensões, angústias e auto-proibições. Sem se dar conta ou mesmo com intencionalidade, o uso político que bispos descendentes fizeram dos livros de Agostinho, inaugurou na Igreja a prática de estratégias excludentes e autoritárias.

O uso moralizante das Confissões, tornando regras de comportamento as práticas que Agostinho descobriu serem valiosas para ele, minimizou o poder e a fertilidade da obra. Agostinho nunca postulou o ascetismo e o celibato, mas sua influência foi forte o bastante para fazer da atitude “assexuada” uma prática valorizada pela Igreja. Ao que me parece, é importante chegar mais perto, penetrar na história, se envolver, investigar a vida e a obra tanto de Agostinho quanto de seus chatos amigos santos para compreender a constituição das doutrinas em sua origem cercana para, talvez, descobri-los nem tão chatos assim.

Desse modo, penso podermos adquirir instrumentos mais adequados para decantar as misturas venenosas de uma religião dogmática. Confesso que, na minha vida, tão importante quanto aprender a separar idéias sólidas de líquidos intelectuais menos densos foram aquelas santas tardes de arruaça no laboratório de Química da escola, onde a bureta e a pipeta nos faziam pensar em tudo, menos na fórmula do ácido sulfúrico.

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº21: download PDF

 

 






 

 


 

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