teu erro foi me fazer pular etapas
para chegar mais cedo na tua velhice
e sentar tranqüilo — desesperado —
outro bêbado genioso na cadeira de balanço
alisando um gato exultante da própria beleza.
teu erro foi me dar tanta certeza,
tão falha quanto a bravura dos covardes,
de que as coisas podem dar certo,
se estiverem de um lado e nós do outro.
teu erro foi talvez o meu aborto,
a geração depois da geração seguinte,
o buraco negro na camada de ozônio,
a carga triste de um movimento abjeto.
teu erro, por fim, foi meu remédio.
porque se não sou o que pude ser,
pelo menos ficou uma certa brisa,
uma esquina que permanece aberta.
ficaram olhos enfumaçados, e a ilha.
ficaram cigarros pela metade, e foices.
e, por fim, a magia pálida de um grito,
de um abraço, de um soco no estômago,
de um vulto secreto no olho da noite.