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Paulo Gravina
mestrando em Letras na PUC-RJ

 

ALBERTO DA CUNHA MELO

 

Sempre entendi esta coluna puzzles como um espaço da memória. Explico: ela serve para lembrar dos autores (entre os quais filósofos) esquecidos e também para rememorar o que é bom e por que o é. Obviamente, as opiniões divergem; entretanto, até mesmo no fim do artigo sobre Kant, tive que dar o meu braço a torcer, porque, afinal, creio que os melhores filósofos são aqueles que conseguem viver a sua filosofia. É nesse espírito que pretendo dar a minha contribuição, com um puzzles sobre Alberto da Cunha Melo.

Certamente, pouquíssimos já o leram ou mesmo dele ouviram falar. Alberto da Cunha Melo não costuma estar nas fileiras das grandes e nem das pequenas livrarias. Mas tenho certeza de que os antenados em sebos e afins o conhecem de longa data. O poeta, nascido em Pernambuco, em 1942, publicou treze livros de poesia, sendo que Yacala, uma de suas obras mais famosas, chegou a Portugal acompanhada pelo prefácio e pelos elogios de Alfredo Bosi. Alberto chegou a participar ativamente de movimentos pela poesia, como a Geração de 65 pernambucana (1), e até a orar pelo poema, já que sua obra também se dedica a pensar o papel do poeta e da poesia no mundo de hoje. Mesmo trabalhando como sociólogo e jornalista, Alberto sempre encontrava um espaço para a poesia — por exemplo, como editor do Suplemento Cultural do Jornal do Commercio —, criando ali um espaço para os jovens e novos poetas.

Sua obra impressiona pela capacidade de narrativa poética, aproximando-se de composições que vão desde o cordel até T. S. Eliot, e pela diversidade de formas usadas e assuntos tratados, variando desde algumas usadas por alguns movimentos de vanguarda até outras originais criadas pelo próprio autor, como a Retranca (2), sua forma mais famosa. O mais surpreendente, porém, é o ostracismo a que foi condenado nas letras e poesia nacional, cujo espaço dedicado ao poeta (e à sua morte, em outubro de 2007) é insignificante.

Não ouso fazer uma resenha crítica do poeta, pois não me julgo capaz e nem disponho de espaço aqui para fazê-lo. Só me resta, então, diante da cegueira sobre o poeta e a sua obra, questionar: terá a poesia se tornado publicidade pura, conforme a previsão do grande Leminski? Estaremos sujeitos a ler somente o que está na moda e, ainda mais, segundo as interpretações da moda? Será que, em plena era da internet, estamos condenados a ler apenas o que convém e quando convém, ler Vinícius quando se fala de Vinícius, e ler Cecília segundo o número de tiragens de Cecília? Ou, antes, será que as belezas desta terra estão cada vez mais se escasseando, assim como aqueles dispostos a exaltá-las? Não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas e, como mencionado, aqui me dedico somente a evocar a lembrança do poeta e sugeri-lo como leitura. Ressalto, ainda, que Alberto da Cunha Melo não está sozinho nesse estado de ignorância; na poesia, o acompanham nomes como Moacyr Félix, que morreu em 2005, Antônio Olinto, cuja poesia tive a sorte de encontrar e ler em uma antologia rara, e Gerardo de Mello Mourão, que também morreu em 2007.

Este último, certa vez, declarou ter aprendido com Camus, pessoalmente, que os poetas, artistas e escritores não devem fazer história; seu papel é apenas sofrer a história. Sim, mas é bem provável que até esses maus-tratos passem despercebidos na história nacional e que esse poeta, junto a muitos outros escritores e artistas, não tenha a quem transmitir o legado de sua miséria.

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº20: download PDF

 

 






 

 


 

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