Aedos e Rapsodos — O oral e o escrito
A experiência que temos com a literatura ocorre individualmente. Lemos um romance, um conto ou um poema e a experiência é dirigida principalmente ao sentido da visão. Desde crianças nos acostumamos a ler silenciosamente com os olhos. O próprio vocábulo literatura, do latim litteratura, -ae escritura, alfabeto < littera, -ae, letra, assinala essa questão. A experiência grega, no entanto, difere radicalmente, da nossa. Originalmente, as criações gregas acompanhadas de música relacionam-se a manifestações culturais vivas e potentes em que se verifica a presença do divino, quer as Musas, nos cantos épicos, quer Dioniso e Eros, entre outros deuses, nas canções de banquete (sympósion); ou apenas Dioniso, no teatro. Tal circunstância as torna singulares a cada performance. Mesmo na própria Grécia, depois de terem se constituído como gêneros literários, isto é, épico, lírico e dramático, as obras mantiveram sua natureza musical.
Se tomarmos como exemplo a Ilíada e a Odisséia, no século VIII a.C., veremos que os dois poemas foram compostos originalmente para serem cantados, por uma sociedade ágrafa; portanto, essas canções desconheciam uma redação definitiva. Os cantores, aedos, considerados mestres da verdade, segundo Marcel Detienne, eram inspirados pelas Musas e recriavam as canções a cada nova audição, acompanhados de um instrumento de corda. Na Odisséia, principalmente, há várias passagens em que se faz referência à habilidade do aedo. No domínio de Odisseu, Fêmio; na corte dos feácios, Demódoco. O espaço de recepção desses cantos eram os próprios banquetes (daîtes) no mégaron desses palácios. Estamos, portanto, diante de uma experiência viva e coletiva dirigida à audição. Já em seu diálogo Íon, Platão alude ao rapsodo Íon, membro de uma confraria de rapsodos especialistas em Homero. Ao contrário dos aedos, os rapsodos, agora com um bastão na mão, não mais cantam, mas recitam, o que já pressupõe um texto escrito e cristalizado, além de explicarem os versos de Homero.
Os dois poemas, a Ilíada e a Odisséia, tais quais nos foram transmitidos, não são senão uma transcrição de um canto possível para uma escrita alfabética feita por ordem do tirano Psístrato. Qualquer leitor, hoje, pode perceber que ali subsiste uma concepção híbrida, tanto oral quanto escrita. A oralidade participava não só da literatura em sua origem, mas também da filosofia. Havia um ensino filosófico esotérico e acroamático (akroamatikós), destinado aos iniciados, tanto no Pitagorismo, como na Academia de Platão e no Liceu de Aristóteles.