Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Herberto Helder |
Por dentro de um poema correm rios.
Em suas margens, mulheres de cócoras cantam
E lavam velhos lençóis,
Vigiadas pelos fantasmas do meio-dia.
No interior do poema, cidades crescem;
Praças bocejam pássaros ao vento
E os prédios são braços estendidos,
Tentando alcançar o tempo.
No poema, espelhos envelhecem os homens,
Enquanto galos anunciam a última estrela ferindo a manhã.
O mar lança espumas no rosto das jangadas
E a luz desperta o sono antigo das casas.
(Pulsa, dentro do poema, o sangue cintilante dos segundos.)
Fora existe o mundo;
Fora, a esplêndida violência dos poetas,
Atentos para a miséria dos minutos,
Para a força sustida das coisas
Sabedores silenciosos da carne e do instante.