Cadastre-se para receber atualizações do plástico bolha via e-mail:

 




MODELO VIVO

A mão é levantada ainda com preguiça. Devagar, segura a ponta de uma das folhas do jornal. O silêncio é absoluto. Deixa o jornal estendido sobre a mesa e, sem tirar os olhos da página, segura a garrafa térmica de café. Com uma mão desenrosca a tampa, com a outra segura firmemente a garrafa. Desvia o olhar da página para encontrar a xícara. Não a retira de onde está pousada. Segurando com as duas mãos a garrafa, uma na tampa outra no corpo, deixa cair o café fumegante. O olhar distraído não percebe as gotas que espirram no canto esquerdo da página. A xícara é cheia até à borda, o café é abandonado por alguns segundos sobre a mesa. Num movimento quase brusco, afasta o corpo para virar a página e redobrar o jornal. Páginas longas exigem certa intimidade com o ato. O levantar do jornal desvenda migalhas de pão sobre a mesa. Alguém já esteve sentado ali antes, hoje pela manhã. Jornal apoiado na mesa, o primeiro gole de café é dado. Um barulhinho típico do beber-o-café-quente é ouvido, a xícara volta para o lugar. Uma espécie de contorcionismo distraído é feito para, sem tirar os olhos da notícia, pegar um pão francês num saco marrom de padaria, alcançar a faca tateando sem prestar atenção e, finalmente, encontrar o requeijão que servia de apoio para manter o jornal numa inclinação agradável à leitura. O pão é rasgado ao meio com as mãos e pousado sobre o prato localizado entre o corpo e o jornal. O requeijão é aberto e a tampa cai no chão. Apesar do barulho, não há menção de buscá-lo durante os primeiros segundos. Antes, algum artigo precisa terminar de ser lido. Apanhada a tampa ao lado da cadeira, resta no chão uma mancha branca. Esta ficará para depois. O pão no prato, o requeijão numa mão, a faca na outra, os olhos no jornal, a operação de construir um sanduíche se inicia. Uma enorme almofada branca é retirada do pote de vidro e esfregada sem muita homogeneidade no pão. Gotas quase sólidas escorrem pelas bordas, ameaçando a sobrevivência das notícias do canto direito inferior. Por sorte, a fome ou a pressa é maior que a liquidez do queijo e o jornal não é invadido. Mais uma página precisa ser virada e os olhos são desviados do jornal à procura de um guardanapo de papel. Duas ou três folhas são retiradas do porta-guardanapos de uma só vez e esfregadas nas mãos formando um bolo branco de papel e queijo. A última escala do guardanapo inutilizado é a boca, não produzindo muito resultado. Pão no prato, mãos quase limpas, e o jornal é mais uma vez manuseado para encontrar algo que interesse. Chegando à notícia procurada, o jornal é dobrado confortavelmente, depois é colocado sobre a mesa e o sanduíche quase acabado é recuperado com a mão esquerda. Dessa vez não há como evitar, uma gota gorda e pesada cai sobre a manchete, um dedo é passado sobre a gota na tentativa de abrir caminho para a leitura. O dedo melado de queijo branco e tinta preta sai do jornal em busca de mais um guardanapo de papel. Dessa vez, o guardanapo sobrevive à limpeza e é deixado ao lado do prato. O sanduíche está acabado, mais um grande gole de café é dado e a xícara volta quase vazia à mesa. O telefone toca. De longe ouvimos a voz de uma mulher que pede "um instantinho". Alguns passos até a cozinha e "é pra você". O jornal é abandonado, as migalhas de pão estão por todos os lados, o café da manhã está encerrado.

 

 


Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 2 : download PDF

 

 

 






 

 


 

Copyright - Jornal Plástico Bolha - 2008 - E-mail: redacao@jornalplasticobolha.com.br