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por Helena Martins
Professora da área de Estudos da Linguagem


(Quando, entre honrada e vagamente apreensiva, aceitei o simpático convite do editor para assinar esta coluna no segundo número do jornal, tinha me prometido que o que quer que eu fosse escrever não envolveria nem de passagem o nome Ludwig Wittgenstein. Coisa minha: ando com receio de que a minha fixação no pensamento do referido filósofo austríaco já esteja, para os que me conhecem, beirando embaraçosamente o desvio comportamental. Mas, no melhor estilo plástico-bolha: é involuntário... Então lá vai.)

Em seu Da Certeza, Wittgenstein, nos diz: "estou a filosofar agora como uma velhinha que está sempre a perder qualquer coisa e a procurá-la: ora os óculos, ora as chaves" (§532). Talvez se reconheçam aí aqueles que, como nós, tomam a linguagem e o sentido como a matéria do seu trabalho. A experiência deve ser familiar: aquela visão que era antes tão nítida de repente se embaça; aquela porta que já se dava como aberta agora encontra o nariz. E vamos de novo atrás de óculos e de chaves - nossos ou emprestados.

Se é à generosidade de um Wittgenstein que recorremos, melhoramos as nossas chances de compreender, talvez aceitar, essa particular resistência da linguagem a permanecer por muito tempo em território de paz conceitual. Pois, ensinando-nos que a linguagem mantém com as práticas humanas laços mutuamente constitutivos, Wittgenstein nos prepara para esperar que ela manifeste, na mesma medida da nossa vida, uma muito delicada economia entre transparência e opacidade, liberdade e obstrução. É nesse espírito que, tendo em vista sobretudo a dimensão do sentido, Wittgenstein nos diz sobre a linguagem (Da Certeza, §559):

Não é razoável (ou irrazoável).

             Está aí, como a vida.

Para quem, como nós, resolve pôr o fenômeno lingüístico no centro da sua atividade profissional, isso pode às vezes parecer meio penoso. Desconcertada com as recalcitrâncias do objeto com que escolhi trabalhar, eu mesma volta e meia me pergunto: por que não fui ser outra coisa? Sei lá, oftalmologista ou chaveira... Mas no meu caso, e espero que também no de vocês, a hesitação dura pouco. Logo volto a enxergar o acerto da minha opção. Ajuda-me aqui, por exemplo, um antiqüíssimo par de óculos gregos, agora tomados de empréstimo ao filósofo Górgias (483-375 a.C.), para quem

[a] linguagem é um grande soberano, que com o mais diminuto

e inaparente corpo as mais divinas obras executa.
Quem é do campo de Letras toma por ofício o cultivo da intimidade com um grande soberano e
com as obras mais (e menos) divinas que ele executa. Quaisquer que sejam as dificuldades envolvidas, a centralidade da linguagem nos assuntos humanos dá a medida do interesse e da relevância dos fazeres que se voltam especialmente para ela: ensinar, traduzir, escrever, ler, pesquisar, entender.

Pois se a linguagem é, como diria bem mais tarde Guimarães Rosa, "a única porta para o infinito", então nunca deixa de ser oportuno perguntar, de diferentes maneiras e com diferentes ênfases: onde é mesmo que estão as chaves?

 

 

 

 


Esse texto foi publicado no plástico bolha nº 2 : download PDF


 

 






 

 


 

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