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Estalinho

 

A festa junina dos adultos é bem diferente da festa junina das crianças. A das crianças tem barraquinhas, bandeirinhas, brincadeiras.

A dos adultos tem música alta, vozes ainda mais altas, ocasionalmente interrompidas por goles de bebida. A das crianças tem doces, danças, divertimentos. A dos adultos tem risadas, fofocas, política. A das crianças tem pescaria, latas, boca do palhaço. A dos adultos, namoro, latas viradas, filas no banheiro. Esta é uma festa junina dos adultos.

Há, porém, duas crianças largadas no meio do jardim: Miguel e Sabrina. Ele de seis, ela de sete — vizinhos e amigos desde que conseguem se lembrar. Ele loiro, ela de olhos puxados. Ela, filha dos donos da casa; ele, no momento, segura uma bombinha em uma das mãos, pronta para ser estourada.

— Vamos, vamos acender; vai ser legal.

— Não. Se a minha mãe descobrir, ela vai ficar furiosa.

— Ahh, Bina, vamos lá, tua mãe tá cuidando lá da festa.

— Mas seus pais tão aí também. Eles nunca mais vão deixar você vir para cá...

— Olha, tem um formigueiro ali no canto; vamos botar ali... — diz ele, já se dirigindo à lateral do jardim.

Ela, mais curiosa do que preocupada, o segue. Ele encaixa o canudinho no formigueiro e acende. Bem depressa, os dois se escondem atrás de uma árvore.

Ela pensa no fim da festa, na bronca, no castigo. Ele pensa no fim da festa, numa explosão de formigas invadindo a casa. Ela pensa na gritaria, nas orelhas doídas, em um mês sem brincar. Ele pensa na gritaria, na correria, no fim do mundo. Ele, de súbito, no meio daqueles segundos eternos olha para ela. Os olhos se tocam, as mãos se tocam, os lábios se tocam. Primeiro é estranho, mas depois as duas bocas começam a se acostumar ao beijo enquanto o mundo explode lá fora. Era o primeiro beijo de ambos, com o gostinho de último.

Logo após a explosão, eles voltam ao jardim e observam que tudo estava exatamente igual: até o formigueiro permanecia praticamente intacto. A festa continuava a mesma, e os adultos apenas prestavam atenção ao que estava em seu alto horizonte. A decepção de ambos é gigantesca, até que, com um novo brilho nos olhos, ele propõe a ela:

— Vamos acender de novo?

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº19: download PDF

 

 






 

 


 

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