Cadastre-se para receber atualizações do plástico bolha via e-mail:

 

 


Vício

Nogueira não conseguia acreditar. O médico ali na sua frente, condenando-o a um sacrifício que lhe parecia duro demais.

Como parar de fumar? Há quarenta anos ele carregava um cigarro entre os dedos ou no canto direito da boca. Sempre no direito.

Acordava e já passava a mão no maço vermelho. Até fez a concessão de passar a fumar o do maço branco, mas se habituara a comprar o vício em pacotes; tinha estoques no armário do quarto. Poucas vezes deu bobeira e precisou comprar cigarros de madrugada, o que, naturalmente, nunca foi problema para quem mora no Leblon.

Quando a mãe estava no hospital, a irmã reclamava. Tudo esterilizado e lá vinha ele, cigarro na mão, visitar a senhora.

— Não me enche, Idalina, que eu fico ainda mais nervoso. Me deixa pitar!!

Quando as crianças eram pequenas, a patrulha era da mulher, Violeta.

— Lava essa mão, Nogueira! Como é que vai pegar no bebê fedendo a cigarro!

Violeta chegara a fazer chantagem:

— Fumante passiva! Olha a que você me obriga! Pois no quarto não fuma mais! Se insistir, vai dormir na sala! Vício, Nogueira, isso é vício! Não pode deixar ele te dominar!

Apesar de todos os problemas e. . . perseguições — até na empresa inventaram um fumódromo — ele resistia, agarrado àqueles centímetros de nicotina e alcatrão como se fossem a saída de todo e qualquer problema.

Agora, com os filhos maiores, até eles buzinavam na sua cabeça. Gustavo reclamava na hora do café. Batendo uma tigela de açaí com granola antes de ir surfar, o “Saúde”, como o chamava o pai, começava cedo:

— Pô, pai. Pega leve! Já tá fumando a essa hora? Coitado do seu pulmão...

Letícia apelava para a vaidade:

— Ah, papai. Marca uma hora no dentista. Seus dentes estão todos amarelados!

— E as mãos? — completava Violeta. — Já sabe que esse encardido não larga nunca mais...

Agora, por mais dura que fosse aquela vida de fumante inveterado, tratado como um ser contaminado pela pior das pestes, pela primeira vez lhe davam um argumento forte: enfisema pulmonar. Este seria o seu destino se ele não largasse o cigarro.

Nogueira saiu do consultório apavorado o bastante para se livrar do maço no hall do elevador.

Desta vez é sério, pensou. Não dá mais pra brincar.

Quando chegou em casa, Violeta já sabia de tudo. O médico, velho conhecido da família, lhe telefonara, tal a gravidade da situação.

A mulher já tinha o discurso preparado, mas desistiu ao ver o estado de Nogueira. O terno em desalinho, sem gravata, os olhos arregalados.

Violeta resolveu ir devagar, para não piorar o momento.

— Ah, Nogueira. Tenta ver o lado bom disso tudo. O paladar vai voltar, o olfato e olha (com um risinho maroto)... eu volto a te beijar na boca.

Nogueira nem respondeu, foi tomar um banho. Não estava se sentindo nada bem. Já antecipava por que ia ter de passar.

Os filhos e a mulher resolveram dar um desconto e fingiam não se ofender com o jeito brusco com que Nogueira passou a responder a uma pergunta simples, assim:

— Nogueira, vamos jantar naquela cantina nova que abriu aqui perto?

— Como, Violeta? Como? Depois da comida, vão me oferecer um café e como é que eu vou tomar um café sem poder fumar depois, Violeta? Como? Nada de cantina. Macarrão a gente come em casa mesmo.

— Sua irmã nos chamou para um lanche, Nogueira.

— Lanche? Café, bolo? Como, Violeta? Café sem puxar um cigarrinho? Liga e diz que nós não vamos.

Gustavo passou a acordar mais cedo que o pai e a voltar para casa cada vez mais tarde. Letícia se trancava no quarto na hora do jantar e lá ficava Violeta agüentando o mau-humor do Nogueira.

Mas a causa era justa e nobre. Estavam casados havia tantos anos, ele merecia sua compreensão.

Assim se passaram dez dias. Nogueira parecia realmente alterado, mas o medo que o médico lhe impusera era maior que qualquer tentação. Ele resistiria. Ou seria o enfisema pulmonar.

No décimo dia, Violeta acordou de madrugada com os soluços de Nogueira. Chorando? Nem quando a sogra morreu! O marido devia estar mesmo muito mal.

— Nogueira, o que foi?

— Prisão de ventre, Violeta. Prisão de ventre. Chama a ambulância.

— Como, prisão de ventre?

— Faz dez dias que não vou ao banheiro, Violeta. Acho que vou morrer. Liga pro hospital.

Violeta sentou na cama, assustada. — Que história é essa, Nogueira, você não vai ao banheiro há dez dias? Como pode?

— Pois é, não pode! Vou morrer!

— Mas você não tem comido as mesmas coisas de sempre, criatura de Deus? Como não vai ao banheiro? Não faz número dois?

— Não vou porque não fumo, Violeta. Não fumo, não ca...!
Violeta estremeceu, pois esse verbo — entre outros tantos — era de todo proibido naquela casa.

— Como não . . .? Como não.....?

Não Violeta, não ca... porque não fumo. Todo dia de manhã, depois do café, eu ia pro banheiro, com o jornal e o maço de cigarro. Era ali, naquele momento que eu cag...

— Que palavra, Nogueira!

— Tá bom, Violeta. Era nessa hora que eu fazia o número dois. Mas eu dependia do cigarro, agora entendi. Era tudo cronometrado. Eu lia a página de esportes na hora do café e deixava a política para ler no banheiro. Aproveitava para xingar os caras, do presidente ao vereador, puxava meu cigarrinho e... pronto, resolvia a questão. Mas, sem o cigarro, não consigo. Liga pro hospital, Violeta. Vão ter de fazer alguma coisa.

Violeta foi rápida. Pegou o livrinho do plano de saúde, ligou para o hospital. Ligou também para a casa do médico. Afinal, Nogueira se contorcia em cólicas e empapava o lençol de suor.

Os filhos se levantaram, assustados com os gritos do pai.
Finalmente a ambulância, o hospital.

Violeta se apavorou. Nogueira ficara realmente mal. O que ia acontecer dali por diante?

Quando o marido voltou para o quarto, abatido, prostrado, Violeta quis falar com o médico.

— E agora, doutor? Como é que ele vai se livrar desse problema de... constipação?

Com um gesto de desânimo, o médico falou: — Bem, considerando a situação psicológica do Nogueira, acho que um cigarrinho só por dia pode resolver. Mas é só um, olhe lá. Mais que isso... é enfisema pulmonar!!

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº19: download PDF

 

 






 

 


 

Copyright - Jornal Plástico Bolha - 2008 - E-mail: redacao@jornalplasticobolha.com.br