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Nastassja Saramago de A. Pugliese


Leibniz, O Agente secreto da Corte

 

Naquele dia, ele chegou à Holanda num iate. Era o mês de novembro, no outono do ano de 1676. Diziam que, ao andar, Leibniz carregava sua cabeça sempre mais na frente do que o corpo e, muitas vezes, não sabia o que fazer com seus braços; mas, segundo um depoimento da Duquesa de Orleans, ela nunca viu um intelectual tão bem vestido e perfumado. Elegante, o homem de 30 anos que estava prestes a ser considerado o último grande gênio da Europa portava em sua bagagem de viagem uma máquina de cálculo aritmético daquelas consideradas um antecedente dos modernos computadores — a máquina era uma caixa feita de madeira, cheia de cordas e botões — atitude deveras compreensível já que um homem como ele não se separaria tão fácil de suas armas. Nessa época, Gottfried Whilhelm von Leibniz já havia dado sua contribuição nos campos da química, da geologia, da historiografia, do direito, da teoria política, da filosofia, da lingüística, da física e da poesia. Hoje, os escritos do menino que queria ser um prodígio podem ser encontrados nos arquivos de Hanôver e preenchem mais de 150 mil folhas.

Leibniz se deslocara da Alemanha para Holanda na intenção de conhecer o “homem mais ímpio e perigoso de todo o século”, Baruch de Spinoza. As biografias de Leibniz mostram que ele passou toda sua vida vinculado a figuras importantes da nobreza, desde princesas e imperadores a duques e homens da corte. Gottfried era um autodidata que, aos doze anos, já tinha conhecimento de grego e de latim avançado. Entrou em 1661 para a Universidade de Leipzig, quando tinha apenas 14 anos. Apesar de parecer uma idade precoce, para a época era comum e é possível que houvesse outros alunos com a mesma idade que ele. Dois anos depois, graduou-se com a tese De Principio Individui, em que enfatizava, discordando de Aristóteles, o valor metafísico do indivíduo, sugerindo uma explicação fundada em sua inteireza existencial e não apenas na matéria e na forma. Com dezoito anos Leibniz era mestre em Filosofia e, com 21, era doutor em Direito.

Essas conquistas levaram Leibniz ao mundo das altas transações políticas, no qual ele permaneceria pelo resto de sua vida. Na república das letras européias do século XVII, fraturada pela precariedade dos sistemas de comunicação, Leibniz era como uma agência de inteligência de um homem só. Através de uma rede de contatos intercontinental, Leibniz era um dos primeiros a receber pacotes com livros recém-publicados e, cumprindo o trabalho de espião, selecionava as obras e as reenviava para pessoas que julgava apropriadas para ter, criticar e divulgar os escritos. Fora em uma dessas encomendas que Leibniz travou contato com os dois livros publicados de Spinoza, Os Princípios de Filosofia Cartesiana e o Tratado Teológico-Político. Desde então, proferindo opiniões informais a respeito do autor, passou a fazer parte do círculo de leitores de Baruch, onde declarava seu desprezo por “um homem tão erudito ter sido capaz de cair em idéias tão baixas”. Leibniz, servindo à mais alta nobreza e aos cleros inglês e alemão, diz a eles o quão terrível, horripilante e diabólicos são os livros que acaba de ler. Gottfried, um luterano ortodoxo da Alemanha conservadora, desejava defender a mesma ordem teocrática que Spinoza, judeu excomungado de uma Holanda libertina, queria demolir.

E foi por essa rivalidade de ideologias que Leibniz, seis meses depois, envia uma carta para o “Senhor Spinoza, célebre doutor e profundo filósofo de Amsterdam”, procurando estabelecer contato. Algumas cartas foram trocadas entre eles, mas sempre clandestinamente para impedir os riscos de uma exposição pública e preservá-los de maiores complicações. Apesar de os motivos de Leibniz para escrever e querer encontrar Spinoza serem pouco claros, sua fama de conciliador e conhecedor de todas as ciências e produções intelectuais da Europa de seu tempo deixam mais aparente seu lado vaidoso do que seus interesses realmente científicos. Até porque não foi apenas com Spinoza que ele travou contato; um de seus mais controversos movimentos político-científicos foram suas cartas trocadas com Newton. Isaac Newton escreve uma carta a Leibniz contando-lhe suas recentes descobertas e a envia por intermédio de Oldenburg, que demora a entregá-la nas mãos do destinatário. Leibniz, ao recebê-la, responde imediatamente, mas também percebe que precisa publicar com urgência seus estudos senão Newton ganharia a glória de ter inventado o método para o cálculo diferencial. Mas esta “confusão dos correios” fez com que Newton, sabendo da publicação, suspeitasse de plágio. E, mais uma vez, sem provas ou explicações, esta vem a ser mais uma entre as inúmeras histórias mal contadas sobre a vida de Leibniz.
Apesar das más línguas, Gottfried mostrou ser um intelectual da mais alta classe, tendo desenvolvido vários métodos matemáticos, inclusive um sistema binário na aritmética. Acaba que no meio de tantas realizações, o rápido encontro entre Leibniz e Spinoza ficou registrado como um caso de menor importância. Muitos biógrafos quiseram, como também o desejava Leibniz, deixá-lo passar despercebido, mas acredito que lembrar pode ser vital para o entendimento dos pormenores e das sutilezas das relações que caracterizam um século. Essas duas personalidades antagônicas deixaram rastros bem visíveis de suas diferenças, mas os detalhes esquecidos no tempo nos mostram que eles estavam fundados num solo de pensamento muito semelhante.

Se Leibniz se fingiu de amigo para Spinoza, provavelmente o fez porque estava interessado e queria beber mais claramente das águas de seu pensamento. E, se Spinoza aceitou a visita de Leibniz, mesmo tendo conhecimento de que ele era um homem de personalidade cambiante, cheio de máscaras, talvez isso tenha se dado porque Spinoza queria a visibilidade que Leibniz lhe daria. Para o bem ou para o mal. Se Leibniz teve alguma relação direta com a morte de Baruch, isso é algo que não se pode afirmar. Mas que ele tentou de todas as formas apagar as marcas de spinozismo — tanto no mundo, quanto em seus escritos —, disso temos certeza. Agora fica no ar a questão: o que o levou a desejar tão ardentemente o fim das idéias de Spinoza? Será que conseguia enxergar suas próprias dúvidas no texto do filósofo herege? É possível que Leibniz tenha desejado menos apagar as idéias de Spinoza do que se esforçado para esquecer-se de seus próprios pecados.

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº19: download PDF

 

 






 

 


 

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