Björk. Volta, o disco
Volta, o mais recente álbum de Björk (Polydor/Universal. 2007), é conceitual. Como o show, o disco tem um clima ao mesmo tempo apocalíptico e comemorativo. A sensação de pós-tudo convive paradoxalmente com a idéia de um mundo novo a ser desbravado, ou de algo a ser modificado. Se Volta não nos convida a pensar em atos revolucionários, as situações que sugere, entretanto, não são propriamente apaziguadoras, dando a entender que há algo de rebelião no ar.
A faixa que abre o disco, por exemplo, “Earth intruders”, que Björk faz em parceria com T. Mosley e N. Hills, tematiza poética e musicalmente a instauração do caos no planeta por sujeitos que se autoproclamam “invasores da Terra”. As imagens evocadas por música e letra lembram situações inusitadas que vivenciamos no mundo contemporâneo, em que figuras associadas à modernidade, como pára-quedistas e franco-atiradores, nos remetem muito mais à barbárie do que à civilização. Os conquistadores são descritos como seres “lamacentos com gravetos e galhos” que promovem “confusão” e “carnificina”. Musicalmente, como nas demais faixas, os instrumentos metálicos da orquestra feminina Wonder Brass convivem com a percussão eletrônica realizada por Timbaland, produtor e rapper norte-americano. E a interpretação ofegante de Björk reforça o tom de tensão criado pela letra.
O clima épico de “Earth intruders” é de certa forma repetido na última faixa, a composição “Declare independence”, de Björk e Mark Bell. Nesta música, Björk assume um tom exortativo para com o interlocutor, dizendo-lhe de maneira imperativa para “declarar independência”, “criar sua própria moeda” e “seu próprio selo”, “proteger sua linguagem”, “fazer sua própria bandeira” e levantá-la bem alto. A música atinge o clímax com a seguinte passagem:
Damn colonists
Ignore their patronizing
Tear off their blindfolds
Open their eyes
Declare independence
Don’t let them do that to you
With a flag and a trumpet
Go to the top of your highest mountain
O espírito apocalíptico do disco é reforçado por “Vertebrae”, composição povoada de bestas-feras e outras figuras aterradoras. A letra de “Vertebrae”, como outras do álbum, foi escrita por Björk em inglês, idioma que ela não domina por completo, e apresenta diversas passagens estranhas, a começar pelo título (literalmente “Vértebras por vértebras”).
The beast is back!
On four legs
Set her clock to the moon
Raises her spine
Vertebrae by vertebrae
Não só do épico trata o disco. “Wanderlust”, a segunda faixa (composta por Björk and Sjón), dá voz a um sujeito lírico que abandona o porto seguro e segue a sua ânsia por viagens. Há também algo de transgressivo no espírito da composição — mostrando uma sensibilidade semelhante à contracultural que se manifestou nos anos 60 e 70 — ao revelar a repulsa deste sujeito pelos “erros” e “acertos” dos habitantes da cidade onde mora, como se vê na estrofe seguinte:
I have lost my origin
And I don’t want to find it again
Rather sailing into nature’s laws
And be held by ocean’s paws
Björk cuida também nesta faixa do arranjo dos metais, entre outros expedientes, cujos efeitos se fazem notar logo no início, com o som do apito do navio avisando a partida. Algumas experimentações ficam a cargo de Damian Taylor, como o emprego musical do código Morse. “I see who you are” (quinta faixa) surpreende pela letra, que retoma de maneira criativa a idéia do carpem diem, como observamos na citação abaixo:
let’s celebrate now all this flesh
on our bones
let me push you up
against me tightly
[…]
let’s celebrate now all this flesh
on our bones
and enjoy every bit of you
E o ponto alto do disco, na minha opinião, é a terceira faixa, “The dull flame of desire”, cuja letra é criada a partir de um poema do poeta russo Fyodor Tyutchev (1803-1873). A versão inglesa do poema, pela excelência, merece ser transcrita na íntegra:
I love your eyes, my dear
Their splendid, sparkling fire
When suddenly you raise them so
To cast a swift embracing glance
Like lightning flashing in the sky
But there’s a charm that is greater still
When my love’s eyes are lowered
When all is fired by passion’s kiss
And through the downcast lashes
I see the dull flame of desire
Outro aspecto surpreendente desta faixa é o dueto que Björk faz com o inglês Antony Hegarty (do grupo Antony & The Johnsons). Dotado de uma voz belíssima e técnica impecável, ele mais parece um intérprete de canções folclóricas inglesas do que um cantor pop. Antony Hegarty provoca um estranhamento ao cantar com Björk num registro próximo ao erudito, em meio a sons eletrônicos.
Volta parece se orientar por uma concepção cíclica de tempo. Por um lado, por utilizar as batidas eletrônicas e operar à maneira repetitiva das criações estéticas atuais; por outro, por lidar com um eterno presente, num tempo em que os artistas já não estão mais voltados para a colonização do futuro. Paradoxalmente, entretanto, o disco é experimental, como o eram as criações das vanguardas históricas que se guiavam pela idéia de ruptura. Volta traz novidades em tempos de calmaria e repetição.