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Poemasó

No poema ficou o fogo mais secreto
O intenso fogo devorador das coisas
Que esteve sempre muito longe e muito perto.


Sophia de Mello Breyner.

 

 

Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições...

Leio Benjamin. Ciclo: angústia, destino, culpa: ciclo. Preciso de coragem para incendiar o mito em que vivo. A palavra queima, é perigosa, mas insisto. Minha pele tostada faz com que as sensações no corpo se tornem mais sutis e a sensibilidade aumente. Descamo. A pesadez desaparece. Esse incêndio do mito acontece nas palavras, no texto e também no corpo do escritor e do leitor. No meu corpo. A fumaça produzida faz com que os limites entre mim e o fogo se tornem cada vez menos claros: o fogo me queima e está em mim. (Seus olhos ardem e podem enganar você, pois, além da semelhança sensível há uma semelhança imaterial que você não vê. Há um mistério...) Só assim, no limite entre o interior e o exterior, entre o sujeito e o objeto, é possível descobrir alguma verdade.

Benjamin me pergunta: como relatar uma experiência forte demais? Só podemos escrever uma história a partir de seu presente — em contato com o fogo. Decerto a fogueira que incendeia o mito não é a mesma em que se reúnem antigos contadores de histórias para a troca de experiências. As narrações coletivas não são mais uma prática comum na contemporaneidade; mas, através da literatura, da arte, tudo é comunicável, tudo é transmissível. Minha pele está queimada, ardendo, porque a leitura não se restringe mais ao livro. Palavras incandescentes me atingem. A literatura torna-se uma arte menos propensa a realizar obras que a disseminar experiências, diz Ladagga. Todos os sentidos estão envolvidos na experiência da linguagem.

Também para Benjamin, a arte é a única capaz de revelar a própria realidade do mito em que vivemos para então nos liberarmos dele. Mas não precisamos de narrações coletivas: na contemporaneidade a experiência não se encontra no compartilhar, mas na própria palavra — Poemasó. A experiência é vivência, é a materialidade da linguagem. A escrita não é mais a expressão de alguém, não se aprisiona (o escritor está constantemente trocando de pele e não encontra mais limites para seu corpo). Tem a ver com o jogar-se todo na linguagem, na visceralidade de seu instinto; tem a ver com um traço luminoso de outra vida, outra história, que é revelado na escritura.

Onde estou? Quem está falando? Uma força imaginária na escrita que me leva. Um gesto. Uma contingência. Existo no limite — dentro e fora da pele queimada. Frente ao fogo, estou viva; mas, em contato com ele, estou morta. Esta é a magia possível na linguagem. Morte e vida, Severina, ao mesmo tempo. É preciso coragem para me deixar atravessar. E eu deixo; sei que só aqui consigo ser livre: dançando, com a pele queimada, ao redor da fogueira, cantarolando, engasgada com a fumaça, uma nova música que vai fundar uma nova tradição.

 

 

 

Observações

O título deste ensaio é uma homenagem à Ana Chiara, que traz tatuado em seu braço: poemasó. No entanto, a tatuagem é também um acaso, pois só pode ser vista no verão...

Como o próprio Benjamin diz, este trabalho deve desenvolver ao máximo a arte de criar sem usar aspas. Por isso, muitas vezes, sou Guimarães Rosa, e o próprio Benjamin. Por respeito, os termos que não são meus estão em itálico mas sem nenhuma referência imediata.

 

 

Bibliografia

 

BENJAMIN, Walter. “O narrador” In: Magia e Técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987. (Obras escolhidas; vol. I).
ROSA, João Guimarães. “O Espelho” In: Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1974.

 

 

 

 

 

Esse texto foi publicado no plástico bolha nº18: download PDF

 

 






 

 


 

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